Que e quem: concordância do verbo

Pessoa amiga abeirou-se de mim para me pôr a questão de saber se o verbo da oração relativa a seguir sublinhada vai para o singular ou para o plural:

As obras afectam sempre quem as pratica.

Vejam bem que a pergunta foi assim formulada: ‘quem as pratica’ ou ‘ quem as praticam’? Nunca: ‘quem as praticam’, porque o pronome ‘quem’, sujeito, leva sempre o verbo para o singular. Não esqueçam: ‘sempre’!

Comecemos por analisar a oração subordinada relativa, acima bem realçada::
Sujeito – ‘quem’
Predicado – ‘pratica’ .
Complemento directo – ‘as’ (pronome pessoal em vez do nome substantivo ‘obras’).
Mas, acerca de ‘quem’, convém dizer mais alguma coisa, pois se trata de um caso especial. É que o dito pronome pode exercer, ao mesmo tempo, duas funções sintácticas, como no caso presente: sendo sujeito da subordinada relativa, como fica dito, é também complemento directo da subordinante que, analisada sintacticamente, será:
Sujeito – ‘As obras’
Predicado – ‘afectam’
Complemento directo – ‘quem’.
Compl. circunstancial de tempo – ‘sempre’
Isto, porque ‘quem’ = ‘aqueles (ou aquelas) que’… Se reescrevermos a frase com esta alteração, o pronome demonstrativo ‘aqueles’ ou ‘aquelas’ será o complemento directo da subordinante; e o sujeito da subordinada será o pronome relativo ‘que’.
Com o relativo ‘que’, tal não pode acontecer, porque ele se relaciona sempre com um antecedente, expresso ou subentendido.

Vejamos então a mesma frase, agora reescrita com substituição do relativo ‘quem’ e comparem-se as duas versões:

As obras afectam sempre aqueles que as praticam

Analisemos a subordinada relativa:
Sujeito – ‘que’ (referido a ‘aqueles’, seu antecedente)
Predicado – ‘praticam’ (no plural porque o predicado de uma relativa começada por ‘que’ concorda sempre com o antecedente desse relativo (no caso: ‘aqueles’)
Complemento directo – ‘as’ (pronome pessoal, pelo nome ‘obras’) .

É claro que, se o pronome invariável ‘que’ for substituído pelo correspondente variável (o qual, a qual, os quais, as quais), o verbo não terá mais do que concordar com este, não precisando de olhar para o antecedente.
Estão vocês a ver, caros leitores? Não custou assim tanto! E, se calhar, alguém aprendeu algo…

Mas, tratando-se de ‘que’ e ‘quem´ em expressão de realce ou expletiva (= que não é precisa para o essencial do sentido da frase), a questão é outra. Um exemplo, na forma afirmativa e na forma negativa:

Foi ele que disse. Não foi ele que disse.

Na forma afirmativa, podemos considerar que o essencial da afirmação consiste em apenas duas palavras: ele e disse. Na forma negativa, o essencial consiste em três palavras, tendo a mais o advérbio que a torna negativa: ele não disse. Podemos daí concluir que a expressão ‘Foi… que…’ se emprega apenas para decorar a frase, para lhe dar ênfase; pode prescindir-se dela para termos o sentido essencial da afirmação ou da negação. E, neste caso, o verbo varia conforme o sujeito e o ‘que’ mantém-se invariável: fui eu que disse, foste tu que disseste, foi ele (ela, você) que disse, fomos nós que dissemos, fostes vós que dissestes, foram eles (elas, vocês) que disseram.

Mas, atenção, se, na mesma construção expletiva ou enfática, o ‘que’ é substituído por ‘quem’ a coisa é diferente, porque ‘quem’, seja ou não seja expletivo, leva sempre o verbo para a 3ª pessoa do singular: fui eu quem disse, foste tu quem disse, foi ele (ela, você) quem disse, fomos nós quem disse, fostes vós quem disse, foram eles (elas, vocês) quem disse.

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2 Respostas

  1. Olá! Gostaria, se possível, de esclarecer uma dúvida. Sei que, em passivas pronominais (como “vendem-se casas”), o verbo deve aparecer flexionado para concordar com o sujeito paciente plural. No entanto, deparei-me com duas frases que me deixaram em dúvida:

    Confeccionam-se: roupinhas de tricô para cachorros.
    Vende-se: pão de queijo, café e fatia de bolo.

    Tal como estão, mantendo-se os dois-pontos, as duas frases estariam de acordo com a gramática tradicional? A presença dos dois-pontos modifica (ou deveria modificar) alguma coisa? Agradeço desde já a atenção e aguardo seu contato!

    Obrigada.

  2. não cara leitora. Os dois pontinhos não alteram o resultado.
    no 1º exemplo,as roupinhas de cachorro continuarão a ser confeccionadas.
    No 2º exemplo, vc sempre será servida de pão de queijo, café e fatia de bolo, com ou sem dois pontinhos, mas manteiga vc deverá pedir à parte,
    bom proveito, e não engorde e passeie com seu cachorrinho bem vestido.
    regras gramaticais não são fundamentais neste país sem educação nem cultura. como dizem nossos gurus políticos, o que interessa são os resultados. Qualquer analfabeto pode chegar a presifência ou mesmo ocpar o ministério da cultura ou educação, basta ter amsgos de onde jorrem cachoeiras de dinheiro, tipo Valério ou Cachoeira.

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