Mais uma pérola da Língua: Vieira

Para ser pérola, não é preciso que seja em verso: desde que seja em prosa como a do tal ‘Imperador da língua portuguesa’. À falta de poema (Vieira não foi propriamente poeta, embora a sua prosa tenha atingido a grandiosa beleza estética da palavra), vamos transcrever aqui um trecho do Sermão da Sexagésima (penúltimo domingo antes Quaresma), que é uma espécie de sermão metalinguístico, como diriam os linguistas modernos, ou, por outras palavras, uma espécie de ‘arte poética’ da oratória sagrada, que poderá alegoricamente aplicar-se a todo o tipo de oratória, a todo o tipo de discursos, sejam eles religiosos – do púlpito – ou políticos – da tribuna…
Tirámos um excerto da parte IX, onde Vieira fala da palavra, das palavras do(s) pregador(es). Ora vejamos. Começa por uma pergunta que é a ‘deixa’ da parte anterior: “Pois se nenhuma destas razões que discorremos, nem todas elas juntas são a causa principal nem bastante do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus, qual diremos que é, finalmente, a verdadeira causa?

IX
“As palavras que tomei por tema o dizem: Sémen est verbum Dei. Sabeis, Cristãos, a causa por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras mas não são palavras de Deus.”
[…]
“Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Génesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os Padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante, se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos? Oh que bem levantou o pregador! Assim é; mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, ouça-me.”
[…]

Comentário meu: tente o eventual visitante leitor substituir “palavras de Deus” por “palavras da Verdade” e “Escrituras” por “Vida real da sociedade em que vivemos” (e seus ‘parlapiadores’ – religiosos ou políticos) e será levado a pensar na tremenda actualidade destas palavras de Vieira.

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