Tenho verificado a insistência obstinada do uso do ’se’ apassivante, levando-me a concluir que os falantes que lhe dão este uso incorrecto, de alto gabarito, pois – jornalistas, escritores, literatos e até, quiçá, linguistas, pressupõem que este ’se’ não será mais do que um pronome indefinido, capaz de exercer, sintacticamente, a função de sujeito..
Como se trata de matéria bastantemente tratada noTento na Língua!… (Cf. Rubricas 21, 22 e 146), lembrei-me de trazer para aqui o assunto, transcrevendo integralmente a primeira (21). Mas convinha que os eventualmente interessados lessem também as outras duas…
“Há erros linguísticos que são dados por falantes de prestígio notável. E quanto maior for o prestígio mais facilmente os erros se “pegam” como carraças aos outros falantes, incautos, inseguros ou que desconhecem as razões dos mestres em que nos apoiamos. Dos mestres e das regras que eles aconselharam ao legislador…
Transcrevo:
- de uma entrevista de personalidade muito conhecida: “… É como as anedotas. Tira-se os alentejanos, põe-se os belgas.” (1)
- de uma crónica de conhecido político: “… se abre um novo capítulo e que nele se pode escrever novas páginas.” (2).
Como deveria ser?
(1) Tiram-se os alentejanos, põem-se os belgas.
(2) …e que nele se podem escrever novas páginas.
A incorrecção vem, certamente, de se pensar que este “se” equivale ao “on” francês. Mas não equivale. Até porque o nosso “se” não é nunca sujeito sintáctico, como acontece com o tal “on” que, em português só pode ter equivalente em expressões como: a gente, alguém. a pessoa, com valor pronominal: A gente faz; alguém faz; a pessoa faz (= “on fait”). Para os casos em apreço, temos a nossa “partícula apassivante” – “se”. Apassivante, porque a expressão verbal em que ela entra equivale a forma passiva. Voltemos ao exemplo (2): “… que nele se podem escrever novas páginas” = “… que nele podem ser escritas novas páginas. É a eterna questão de: “vendem-se (=são vendidas) casas”; “dizem-se (=são ditas) coisas”; “fazem-se (=são feitas) maravilhas.” O agente da passiva, nestes casos, é indeterminado, precisamente porque se poderia reduzir a frase a uma forma activa de sujeito indeterminado, com uma das expressões pronominais acima referidas. “Passiva impessoal” lhe chama, por exemplo, A. Afonso Borregana (Vid. Gramática, referida na rubrica 22). Dizem-se coisas =Alguém diz coisas. Agora, “Se diz coisas” (”se” – sujeito, “diz” – predicado, “coisas” – comp. directo?…), não, já que o “se”, originalmente pronome reflexo, nunca poderia ser sujeito.
É assim que os nossos gramáticos (com irrelevantes excepções…) nos têm ensinado. Eis alguns, da década de quarenta para cá e que tenho aqui à mão, tendo os dois primeiros funcionado praticamente como livro único durante décadas… (Ver desenvolvimento deste tema nas rubricas 22 e 146)”.
Mas não me vou embora sem deixar aqui um de tantos exemplos dos que recentemente tenho encontrado nos jornais e revistas que leio:
“[…] Com o aeroporto, com o TGV, com as grandes obras que se anuncia , vem aí investimento público suficiente…” (DN 27/4/08, p. 4, numa pergunta em grande entrevista com um político. )
Obras que se anuncia?! Não! Obras que se anunciam (=são anunciadas).
Este é um daqueles casos cuja solução aqui apresentada se baseia não só na generalidade dos mestres gramáticos, como também no uso corrente dos falantes, mesmo sem elevada escolaridade…
[...] Aqui vai mais um caso, do DN de 25.07.08, p. 9, na carta destacada: “… assim por cá, mas saúda-se as boas intenções do procurador.” Na lógica do que aqui defendo, deveria ser: “saúdam-se (=são por nós saudadas) as boas intenções do procurador.” (Cf., mais uma vez, rubricas 21,22 e 146 de Tento na Língua!… e, neste blogue, a postagem “O ‘se’ apassivante”). [...]