“De modo a que”… porquê?

Outubro 23, 2009 - Leave a Response

Atenção à consecutiva!

Da entrevista a Ângelo Correia’ (DN 18/10/2009, p. 3, caixa ao alto, antep. linha):

“…de modo a que (sic) a estrutura partidátria que ajudou a fazer nascer consiga responder aos desafios…”; repete-se na p. 5, última coluna ‘O meu candidato não é um cavalo’, antep. linha: “ … um corpo de ideias e um conjunto de práticas de modo a que (sic) volte a ser importante termos causas…”

Chamamos a atenção de quem depare connosco ou adrede nos visite, para a incorrecção que vai grassando por aí, mesmo a níveis escolares elevados. Trata-se da oração consecutiva que, como nos ensinam (a mim ensinaram) todas as gramáticas normativas que conheço, é introduzida por uma das conjunções subordinativas consecutivas –  de (tal) maneira que; de (tal) modo que; de (tal) forma que; de (tal) jeito que, etc. – as quais não têm lá intrometida  (não precisam nada de ter) qualquer preposição: a preposição “a” está a mais.

Se fosse Camões, ou Vieira, ou Garrett, ou Eça, ou Pessoa, ou decerto… Saramago, escreveriam (diriam) assim: “… de modo que a estrutura partidária…”. E assim: “… de modo que volte a ser importante…”. É claro que não punha as mãos no fogo por outros escritores (talvez muitos) da nossa praça das letras, mesmo alguns já bem conhecidos, que, se calhar, já terão sido contaminados…

(Cf. rubricas atinentes ao assunto em Tento na Língua! e neste blogue).

A salgalhada e o carácter

Outubro 23, 2009 - Leave a Response

Para que não pensem que o Tento se mete em política, extravasando os limites da linguística, lembrei-me de antepor aqui uma introdução de cariz linguístico. Sim, porque a língua é base de tudo, da nossa vida social e, por isso mesmo, também da nossa vida política. Vamos lá então às palavras.

Salgalhada , s. f. Pop. Confusão; mistura de coisas diferentes; mixórdia, trapalhada, mistifório” (Dic. Da Língua Portuguesa, J. Pedro Machado, vol VI). Etim.: De salgar. Em em 1873, D,V. (Dic. Etimológico da língua Português, mesmo autor). Explicita-se D. V.: Grande Dicionário Português ou Tesouro da Língua Portuguesa, pelo Dr. Frei Domingos Vieira. Porto, 1871-1874).

Tudo isto para para dizer que a palavra é bem vernácula, formada já na nossa língua bem crescidinha, com o seu sentido próprio e figurado. Deriva de salgalho (= acto ou efeito de salgar).

“Carácter (L. character <Gr. charaktér), Cunho; marca; impressão traçada; tipo de imprensa; distintivo; especialidade: sinal de abreviatura; índole; natureza; sentimentos; feitio moral; firmeza de vontade; expressão ajustada; propriedade.” (Ibidem).

Agora, o que nos traz aqui, hoje.

Eis o que diz o DN (18/10/2009, p. 12 “Somos todos crescidinhos”) citando o Expresso:

“Se se confirmar que o encontro foi combinado e até promovido por Carvalho da Silva, como diz o Expresso, este terá induzido em erro Jerónimo de Sousa e a outros dirigentes comunistas. Isto porque, na nota que o secretário-geral da CGTP enviou para os comunistas, este diz que transmitiu a mensagem a António Costa ‘num encontro casual’, enquanto, afinal tudo terá sido preparado ao pormenor.”

A ser verdade, poderemos então perguntar: se somos todos crescidinhos, como é possível gente tão grada comportar-se como se o não fosse?

Salgalhada de Lisboa: metáfora da “paisagem”

Outubro 8, 2009 - Leave a Response

A gente cá de baixo, da “paisagem”, vê, olha e já não entende nada. Se calhar, nada já será para entender. O que se passa em Lisboa nesta campanha eleitoral para o município da Capital.

Às Portas de Santo Antão, lá está às moscas – dizem-me – uma sede (ou ex-sede?) do Movimento da Bela Helena, que deixou de ser preciso depois da “coligação” com o candidato Costa. “Já não há movimento” (até me apetece adaptar a bela canção de Rita Guerra). Sá Fernandes fugiu do BE e agarrou-se ao “tronco”. Saramago, alheio àquele que diz ser o  seu partido, por não sei que coerência ou incoerência, apoia o Costa. Carlos do Carmo, por não sei que fado, é mandatário. Já agora só falta que alguém do PSD se zangue com o Santana e se “encoste” também. E é para perguntar: se estas coligações individuais e individualistas trazem aos “coligados” ou à autarquia alguma vantagem. Se não trazem, é mau; se trazem, é muito pior. Eu acho… Não acham vocês?

Estava este texto neste ponto – vai não vai, publica-se não se publica –,  quando aconteceu a bica do Chiado, de Carvalho da Silva… E achou-se que era mesmo preciso publicá-lo, agora com mais este mau-exemplo acrescentado. Então já viram? Três militantes que se dizem de um partido – um Nobel, outro o Rei do Fado, e agora outro, Doutor, o sindicalista dos sindicalistas – todos os três a “tomar bicas” (com aspas ou sem aspas) com o candidato de outro partido. Militantes de um, mas apoiam outro, dizendo que sim senhor, são deste mas apoiam aquele. Onde está a coerência correspondente à importância (pelo menos à celebridade) destes senhores?! E o mau-exemplo? E a ética política ou a ética tout-court?  É para ficarmos aqui a pensar, com o poeta das mais belas canções de Um Homem na Cidade: que Lisboa é essa, que País é este?

Ary, Ary! Ah sim, “poeta castrado não”!

Parónimos compostos de ferir

Outubro 5, 2009 - Leave a Response

O Presidente da República vai preferir [sic] uma ‘alocução a propósito dos 99 anos da Implantação da República falando aos portugueses no Palácio de Belém’ ” (DN 5/10/2009, p. 3)

Vê-se bem que é uma gralha (só podia ser). Mas a gralha dá-me azo a expor aqui um arrazoado sobre os compostos de ‘ferir’.

Comecemos pelo primitivo:

“Ferir (L. ferire)  t. Golpear; bater; travar (batalha); fazer chispar (lume); rasgar; tocar; causar sensação a; ofender; punir; articular. (Dic. Complem. da Língua Portuguesa, Augusto Moreno).

Vejamos agora uma lista de compostos, por ordem alfabética com os respectivos étimos latinos: aferir (L. afferere por afferre), auferir (auferere de auferre) anteferir (anteferre), conferir (conferere por conferre), deferir (deferere por deferre) desferir (disferere de deferre), disferir (form. vern.), inferir (inferere por inferre), indeferir, interferir (interferere por interferre), preferir (L. praeferere por praeferre), proferir (proferere por proferre), referir (L. referere por referre), transferir (transferere por transferre).

Facilmente se conclui que, nos compostos, o elemento -ferir não deriva do latino ferire (cuja semântica tem mais ou menos a ver com os significados acima indicados), mas sim do latino ferre (= levar). A não ser, talvez, disferir, que poderia muito bem ter vindo de um hipotético disferire que, valha a verdade, os meus dicionários latinos não registam. Outrossim se conclui que, na etimologia dos compostos, o clássico latino ferre, para chegar a ‘ferir’, teve de passar pelo latino popular ferere, que, neles,  deu -ferir.

Por curiosidade, só mais uma observação: é sobre os dois verbos aferir e auferir.

Aferir > afferre > aferere > ad+ferre.
Auferir > auferere > auferre > ab+ferre.

No primeiro, o ‘d’ do prefixo ‘ad’ foi assimilado pelo ‘f’’, daí escrever-se em latim com duplo ‘f’’; no segundo, o ‘b’ do prefixo ‘ab’ vocalizou-se em ‘u’, daí escrever-se auferre só com um ‘f’’.

“… não vá os jornalistas pensarem”

Setembro 22, 2009 - Leave a Response

…não os jornalistas pensarem que foi desligado por questões ideológicas” (DN 13/09/2009, p 3 , ‘caixa’ ao cimo, na grande entrevista com Louçã, negrito nosso).

São óbvias as distracções de quem redigiu a frase de que se extrai a oração transcrita neste título. E são duas:

1) “vá”, que devia ser vão, porque o verbo tem como sujeito (no caso, pospositivo) “os jornalistas”;
2) “pensarem”, porque se trata de uma construção perifrástica ir pensar. Ora, numa conjugação perifrástica, a conjugação verbal fica por conta do auxiliar (no caso, ir), mantendo-se o verbo principal invariável no infinitivo impessoal.

Espero que todos vós vades pensar no caso. Não vá alguém dizer que alguns de nós não foram pensar. Aqueles que não forem pensar, só ficarão a perder.

Alguém terá, pois, de rever duas coisas: a conjugação perifrástica e o uso do infinitivo (pessoal e impessoal).

O verbo concessivo: pesar

Setembro 22, 2009 - Leave a Response

É claro que só JS.e MFL poderiam aspirar a ganhar – mas, sobretudo, confirma-se agora que qualquer dos dois,  pese a ligeira vantagem do PS, ainda está em condições de aspirar a isso.” (DN 12/09/200, p. 9, negrito nosso).

A ideia concessiva, é geralmente expressa por oração subordinada concessiva conjuncional, ou então pelo verbo concessivo por excelência – pesar – o qual integra a formação da locução prepositiva concessiva ‘apesar de’. Já agora, lembremos as principais conjunções subordinativas concessivas – embora, ainda que, se bem que, mesmo que, etc. – que levam geralmente o verbo para o conjuntivo (ou, com a locução apesar de, para o infinitivo).

Um exemplo: apesar de ter uma idade avançada, ele tem a cabeça lúcida. Subordinada concessiva: ‘Apesar de ter uma idade avançada’. Subordinante: ‘ele tem a cabeça lúcida’.

O mesmo exemplo com conjunção: embora tenha uma idade avançada, ele tem a cabeça lúcida.

Há, porém, maneira de construir a concessão com o verbo concessivo pesar. Nesse caso junta-se normalmente ao verbo a conjunção embora. Querem ver um exemplo?

Pese embora a sua idade avançada, ele mantém a cabeça lúcida.

Quero dizer com isto que o verbo concessivo, normalmente, não se usa sem a conjunção. Se fosse eu, escreveria assim o exemplo acima transcrito do DN: “… pese embora a ligeira vantagem do PS.” Mas poderá haver quem não considere erro a omissão da conjunção.

“Irão [sic] haver alterações”? Não!

Setembro 12, 2009 - Leave a Response

Eram precisamente catorze horas e dez minutos deste dia  27 de Agosto, ia eu a deitar-me ao comprido para a indispensável sestinha, pois então, ligo o rádio-despertador e logo um repórter da Antena 1, não sei a que propósito: “…irão [sic] haver alterações”! E não fui capaz de me entregar logo nos braços de Morfeu, só a pensar neste desgraçado verbo haver que, ao contrário do seu etimológico latino – habere -, ou do verbo ‘sum’ que lhe fazia as vezes de forma pessoal, ao contrário desses – ia eu dizendo –, nas novilatinas virou impessoal nesta acepção. Em francês, il va y avoir des altérations…; em castelhano, no creo em brujas, pero que las hay, hay…

“Irão haver alterações”? Não senhores! Irá haver alterações.

Quando o verbo haver impessoal (ou qualquer outro impessoal) se usa com auxiliar, é o auxiliar que, na conjugação, assume a impessoalidade. Remete-se o deparante de acaso ou adrede visitante para as várias rubricas de Tento na Língua! que falam do “desgraçado verbo haver”.

“Sei o que fizestes [sic] no Verão passado”

Setembro 12, 2009 - Leave a Response

É o filme que está na moda política dos “frente-a-frente” televisivos. Mas alguém me disse que o primeiro DVD apareceu com o erro gramatical apontado no título. E quem mo disse tem toda a razão, uma vez que a fala que nos serve aqui de título é dirigida a um ‘tu’ qualquer, adolescente, no primeiro como nos seguintes filmes da série. Portanto, “sei o que fizeste”, não “o que fizestes“.

Vejamos esse pretérito perfeito em todas as pessoas: eu fiz, tu fizeste, ele fez, nós fizemos, vós fizestes, eles fizeram. Sublinho aqui a segunda pessoa do singular e a do plural, para que se veja bem a diferença entre uma e a outra: singular sem ‘s’ final; plural com ‘s’.

Eu até me lembrei de dizer a quem me apontou o erro que, se calhar, o responsável pela tradução fez de propósito, talvez com a intenção, realista, de pôr em prática o uso corrente, incorrecto (não conforme a norma), do linguajar dos nossos adolescentes que, ou por ignorância da norma ou porque é “giro” falar assim, usam com ‘tu’, eu diria generalizadamente, a forma do plural – ‘fizestes’: tu já fizestes isto? Que fique bem claro, pois: a desinência pessoal da segunda pessoa singular do pretérito perfeito do indicativo, de qualquer verbo, é –ste – tu fizeste; da segunda pessoa do plural é –stes – vós fizestes. (Atenção: o tracinho aqui não significa que deva separar-se a desinência pessoal do radical: escreve-se tudo pegado – tu fizeste, vós fizestes).

Por curiosidade, veja-se como, sem ‘s’ ou com ‘s’, as segundas pessoas do pretérito perfeito já nos vieram assim do latim: tu fecisti > tu fizeste; vos fecistis > vós fizestes.

Concluindo, é, de facto, um título incorrecto. Por isso é que, na edição seguinte, o DVD já tinha corrigido o pontapé na gramática da primeira: “Ainda Sei o que Fizeste no Verão Passado.”

“O acordo ortográfico é uma merda”

Agosto 24, 2009 - One Response

” ‘O acordo ortográfico é uma merda’ diz Millôr”
(DN 23/Ago/2009, chamada de primeira página para p. 52 – entrevista).

Pois. A definição do acordo (contra) que eu tenho tentado fazer com milhares de palavras, aqui no blogue e no livro homólogo, consegue Millôr fazê-la na perfeição com três palavras apenas, um verbo, um artigo indefinido e um nome substantivo (que a minha mãe dizia que era feio, que era pecado a confessar) : “…é uma merda”. Sim, posso realçá-la (a definição). Nem sou eu que o digo: é o ilustre falante lusófono brasileiro Millôr Fernandes. Leiam! A chamada (p. 1) e a entrevista (p.52) que enche de claridade tal correcta afirmação. Mas basta a chamada para que nela se mirem todos quantos, fazedores e detentores do poder sobre essa coisa a que chamaram acordo ortográfico e a que Millôr, com sua autoridade de lusófono falante excelente, chamou a tal coisa. Ah sim, agora também já um pobre e recatado falante lusófono como eu pode dizê-lo sem medo de que seja feio ou pecado: “0 acordo ortográfico é uma merda”.

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“Um capítulo para o ‘evangelho’”

Agosto 15, 2009 - Leave a Response

José Saramago,

(a um Nobel  não se trata por Excelência, nem por Senhor, trata-se simplesmente)

começo por dizer que tenho ali ao lado, na minha estante, os seus livros que mais aprecio, a começar, por ordem da importância que para mim têm como leitor, pelo Memorial, logo seguido de o Evangelho… É só virar-me para a direita e lá estão eles – estes e outros.

Li a sua crónica “Um capítulo para o ‘evangelho’” DN 26/7/2009. Não sei bem que capítulo há-de ser por ordem numérica. Se fosse o último, creio que seria o 25, pois me dei ao trabalho de voltar ao Evangelho para os contar e marcar a lápis, já que o Autor achou por bem não poupar ao leitor mais esse ‘ruído’. Digo ‘mais esse’, porque o da pontuação é para mim o maior… Gostei muito da ‘crónica’, como muito tinha gostado do Evangelho, que lera há já uns anos. E por falar de ‘evangelho’, que eu acho ser, repito, um grande livro, do melhor da obra saramaguiana, quero cingir-me agora àquele outro capítulo que, na minha contagem, eu marquei de 22: aquele longo ‘trímonólogo (digamos assim) em que Deus (o Padre Eterno da ‘Velhice’?…), perante a severa crítica em prolepse de Jesus, e também do Pastor (que é o Diabo, pois), a tanta desgraça trágica que Deus ‘irá’ fazer, mandando à sua Igreja que fizesse – ou consentindo, ‘Ele’, impávido e sereno como ‘Lhe’ convém – mantém a sua omnipotente, infalível e inamovível frieza-insensibilidade-fixidez. Só este capítulo valeria bem o livro.

E se ele fosse pontuado como este ‘capítulo’, digamos ‘póstumo’, o da crónica do título desta?… Ao lê-lo, ia perguntando a mim mesmo por que razão o Autor da ‘crónica’ não usou esta pontuação no Evangelho segundo Jesus Cristo, o ‘original’, preferindo uma pontuação que, em minha modesta mas convicta opinião, não terá (felizmente) futuro?… E faço ainda outra pergunta. Se o grande escritor prova – nas crónicas, no blogue e noutros textos que tenho lido ultimamente, mesmo ficcionais,  incluindo a ‘crónica’ (?) de 26 de Julho que me serve de motivo – que sabe usar com mestria estilística a pontuação convencional e universal, de forma a enriquecer, tornando-o mais legível, o estilo barroco ‘saramaguiano’, porque se lembrou ele, e decidiu,  dessoutra pontuação ‘ruidosa’, em que a vírgula é para todo o serviço? Decidiu que deveria ser, para si, a pontuação particularmente ficcional?

Coloquei o recorte da sua crónica bem dobradinho no fim do ‘meu’ Evangelho, como capítulo ‘adendo’, numerado de 25.