Acentuação de palavras agudas
Janeiro 2, 2010

Para não haver confusões em relação ao anterior texto ‘Peru sem acento’, peguei numa boa gramática e, com a devida vénia, decidi transcrever aqui tudo o que nela se diz sobre acentuação de palavras agudas ou oxítonas. Só é pena esta boa gramática, como em geral todas elas, nem sequer referir a legislação em que se baseia, os tais decretos da reforma de 45. Antes de mais nada, é bom recordar que a maior parte das palavras agudas não se acentua graficamente. Aí vão, pois, os casos em que se acentuam:

«Acentuam-se graficamente as palavras agudas nos seguintes casos:
1. Quando terminam em ‘a’, ‘e’ e ‘o’ abertos ou médios,ou vogal nasal, seguidos ou não de ‘s’:

vogais abertas: dá. dás, café(s), avó(s)
vogais médias: lê, lês, revês avôs
vogais nasais: irmã(s), maçã(s)
ditongos nasais: irmão(s), mãe(s), põe, pões

Nota 1: incluem-se nesta regra as formas verbais em que desaparece a terminação ‘r’, ‘s’, e ‘z’ por se lhes juntar o pronome lo, la, los, las: aceitá-lo (aceitar+lo), sabê-las (saber+las), supô-lo (supor+lo ou supôs-lo), fê-los (fez+los), fá-las (faz-las), etc.
Nota 2
: Nos derivados de palavras graves com terminação nasal, mantém-se o til na derivação: maçãzinha, irmãozito, vãmente, etc

2. Quando terminam em ‘i’ ou ‘u’ precedidos de outra vogal com que não formam ditongo, seguidos ou não de ‘s’: aí, saí, saís, país, concluí, concluís*

Nota 1: Não se acentuam quando esse ‘i’ ou ‘u’ forma ditongo: saiu, concluiu, anuiu, pauis
Nota 2:
Não se acentuam quando seguidos de consoante que não seja ‘s’: ruim, sair, raiz, juiz, paul [posso acrescentar: Raul, Abiul, Vermoil, etc.]*
Nota 3
: Repare-se na diferença entre aí e ai; saí e sai; caí e cai

3. Quando terminam nos ditongos abertos éi, éu, ói, seguidos ou não de ‘s’:

papéis, chapéu(s), lençóis, constrói, constróis

Nota: Estes ditongos não se acentuam quando são fechados: saberei, plebeu(s), boi(s), depois

4. Quando terminam em ‘em’ ou ‘ens’ e têm mais do que uma sílaba: alguém, porém, Santarém, armazém, armazéns, mantém, manténs

Nota: Quando têm uma única sílaba não se acentuam: bem, cem, tem, tens»

(Gramática do Português Contemporâneo, José Manuel de Castro Pinto / Maria do Céu Vieira Lopes, Plátano Editora, 6ª edição 2005)

__________

* Os dois pontos marcados por mim com asterisco são os casos que podem trazer alguma confusão e levar os falantes desprecavidos a escrever com acento gráfico palavras agudas como: peru(s), rubi(s), Raul, paul, Abiul, etc. Como se vê, o caso de peru nem é mencionado, porque simplesmente não se enquadra nos casos de palavras agudas que se acentuam, o que significa que não leva mesmo acento gráfico, como de resto a maior parte das palavras agudas.

Peru sem acento: é assim porque sim?
Janeiro 2, 2010

Peru sem acento, pois claro. Mas, antes de mais nada, falar em peru, pelo Natal, é trazer à lembrança aquele peru recheado da tia Mindinha (tia dos meus filhos, claro). Aquilo era comer e chorar por mais. Coitada, já não volta a fazer, mas a lembrança, para todos nós, fica.

Por falar em peru, era uma vez mais no Jogo da Língua, Antena 1 (em 23/12/09). A questão era: peru leva ou não leva acento gráfico? Resposta repentina do concorrente: leva acento, sem dúvida. – Mas não tem dúvida mesmo? – Tenho a certeza absoluta, leva acento. – Bom, vamos então ver o que nos diz a senhora doutora, ela é que sabe. – Mas eu vou ao Dicionário da Academia e não sei mais quê, porque leva acento sim senhora!

Vem a senhora doutora e diz: “Peru não leva acento. É uma palavra aguda. É nessa vogal que recai o acento tónico mas não leva acento gráfico”. E pronto.

E desta vez eu tenho de protestar mesmo. Duas coisas que se resumem no argumento magistral:  na sua forma magistral  mesmo – Magister dixit, é assim porque sim, porque eu digo – e  na sua outra forma de aceitação reverentemente submissa – a senhora doutora é que sabe. Vamos à primeira.

Então em qualquer um Jogo da Língua, numa rádio pública, acham que uma resposta assim é o bastante? Não tinha a senhora doutora a obrigação de explicar aos ouvintes porque é que peru não leva acento? Que não é porque a senhora doutora diz, mas sim porque – devia a senhora doutora dizê-lo – assim está estabelecido legalmente no decreto 35.228 de 8 de Dezembro de 1945, decorrente da reforma ortográfica que resultou da Convenção Ortográfica Luso-Brasileira – que os Brasileiros mandaram às malvas… -, e que ainda hoje é vigente. E, se quisesse, não lhe ficava mal acrescentar: até que alguém nos consiga impor um desacordo malfadado que ronda por aí as muralhas da nossa ortografia – digo eu. Vão a uma boa biblioteca, senhoras e senhores. Requisitem para leitura o Diário da República que publicou o decreto 35.228 de 45 , 8 de Dezembro,  e seus anexos, e lá verão a razão por que peru, como a maior parte das palavras agudas, não leva acento. Qualquer boa gramática não faz mais do que transcrever; mas também devia indicar a fonte legislativa. Não vamos aqui formular as regras, que deparante de acaso ou adrede visitante pode ler na postagem seguinte. Não é, pois, porque algum magister ou magistra o diz, mas sim porque vem na tal legislação, depois completada pelo Vocabulário de Rebelo Gonçalves, que o elaborou por delegação do Governo para o efeito , e que José Pedro Machado continuou no Grande Vocabulário da Língua Portuguesa, Círculo de Leitores.

Ah, só falta dizer que, além deste decreto, foi publicado em 1973 o decreto-lei nº 32/73 de 6 de Fevereiro, que estipula no seu artigo único, a “eliminação dos acentos circunflexos e dos acentos graves com que se assinalam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo ‘mente’ e com os sufixos iniciados por ‘z’.”

E, simplesmente, é por efeito desta legislação que peru se escreve sem acento, e que, enquanto não for revogada a legislação desta reforma, peru não pode escrever-se de outra maneira, mesmo que algum dicionário se atrevesse a registar o contrário, o que, aliás, não acontece com o Dicionário da Academia de Lisboa, contrariamente ao que  sugeriu o concorrente. Não acontece com peru, mas acontece com outras coisas que dizem mal do estatuto de que se arroga o tal dicionário (Cf. algumas rubricas dos livros Tento na Língua!: 116,133, 149, 150, 180, 207, e 223).

E não quero acabar este texto, que já vai longo, sem dizer mais qualquer coisinha sobre o argumento magistral passivo. É que não ficava nada mal à senhora locutora Filomena Crespo, pivô do programa, não exercer tanto a submissão magistral, até porque se trata, sem qualquer dúvida para mim, já o escrevi uma vez, da melhor locutora que me é dado ouvir em Antena 1 – voz, locução, inteligente moldação, modulação e domínio da língua – a quem deviam ter ensinado estas coisas, mesmo já no secundário, quanto mais no superior. (Ver a seguir o post “Acentuação de palavras agudas”.)

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