Acentos a mais, acentos a menos

Nota prévia – No nº 928 d’O Correio de Pombal, p. 4, foi publicado o texto, com o mesmo título – Acentos a mais, acentos a menos – em circunstâncias baralhantes: atribuída a autoria a um tal António Oliveira, e acrescentados dois parágrafos a que o verdadeiro autor, António Marques, não reconhece paternidade. Dado que, se alguma correcção houve, não teve a visibilidade que a baralhada merecia, aqui se dá conta, sem mais trapalhadas, do texto integral, corrigindo-se, além disso, um lapsus plumae do original: é que Vénus e lápis não se acentuam por serem palavras graves terminadas em ‘s’, mas sim por serem palavras graves terminadas em ‘i’ ou ‘u’ seguido ou não de ‘s’. Aí vai, pois o texto, devida e totalmente corrigido:

Estamos fartos de ver por aí, por esses jornais além (e revistas), acentos a mais e acentos a menos. Digo fartos ‘de ver’, porque na fala, no oral, eles não se mostram. Ai se mostrassem… teríamos com certeza as cataratas agravadas… Mas há quem insista e até quem diga que é ser picuinhas estarmos para aqui a ligar tanta importância aos acentos. Acentos gráficos, pois claro, ou seja acentos que se vêem na escrita, acentos que se escrevem. Acento gráfico para se distinguir, por exemplo, de acento tónico, que pode não ser gráfico, não ser escrito. E antes de mais, fique-se sabendo duma vez por todas que, nas palavras esdrúxulas, o acento tónico representa-se sempre graficamente, ou seja, todas as palavras esdrúxulas, todas sem excepção, levam acento gráfico: agudo se a vogal tónica é aberta, circunflexo se é fechada: tónica, câmara, etc. Posto isto como introdução, vamos lá então aos acentos a mais e a menos. Em palavras graves ou agudas, claro, que só excepcionalmente se acentuam, e aí é que está a dificuldade..

Devo dizer que este texto foi-me inspirado, há já bastante tempo, mas de forma especial e insistente aquando da célebre doença recente de Fidel, por ter sido substituído pelo irmão Raul. Vejam bem: Raul (sem acento) e não Raúl (como parece que se escreve em espanhol). Mas como a notícia foi muito repetida, mesmo em primeira página, daí termos visto, em tudo quanto é órgão escrito de comunicação, uma sementeira de acentos gráficos onde nenhum acento gráfico devia ser visto, pois Raul em português não leva acento. No entanto, em jornais e revistas era (e ainda é…) Raúl para a esquerda, Raúl para a direita, Raúl em tudo quanto era sítio da dita notícia. E não! Devia lá estar escrito simplesmente: Raul… Porquê então? – poderão vocês perguntar. É simples a justificação.

Mas, antes de ler a justificação, aconselharia o leitor a consultar tudo quanto seja vocabulário onomástico, fiável. Por exemplo: Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa, Magnus Bergström e Neves Reis, Notícias Editorial; qualquer dicionário, fiável, que contemple a onomástica (nomes próprios). E lá verão Raul sem acento. E porquê? Por via de que regra ortográfica? A regra pode formular-se assim: todas as palavras agudas em que a vogal tónica seja ‘u’ ou ‘i’, precedido de vogal com que não forme ditongo e seguido de consoante que não seja ‘s’, não devem acentuar-se graficamente: Raul, Saul, paul, Abiul, Vermoil, Abigail, Madail (outro nome próprio que espalha por aí acentos, incorrectamente, a torto e a direito…), cair, contribuir, raiz, juiz, etc., etc. Acentuam-se aquelas em que o ’u’ ou ‘i’ tónico, precedido de vogal com que não forme ditongo, for seguido de ‘s’ ou não seguido de qualquer outra consoante: país, caís, caí, contribuí, baú, baús, etc., etc. Acho que chega para convencer o possível leitor. Ou melhor, não se trata de convencer: trata-se, isso sim, de informar, o leitor eventualmente confuso, das regras da ortografia pelas quais nos devemos reger, enquanto estiverem vigentes, pois poderão deixar de o estar se e quando as regras forem alteradas, como acontecerá certamente com algum acordo ortográfico, ou simples reforma unilateral…

Falámos de acentos a mais. Vamos agora falar de acentos a menos. Ou seja, acentos que as regras ortográficas mandam escrever e, vezes de mais, ‘aparecem’ por aí não escritos, especialmente em nomes próprios mas também em nomes comuns. E qual é a regra, então? É simples. Palavras graves terminadas em ‘l’, ‘n’, ‘r’, ‘x’, ‘ps’: Rúben, Cármen, Nélson, Félix, Válter, Vítor, Hélder, útil, cálix, carácter, bíceps, etc., etc. Sim, porque, regra geral, as palavras graves não se acentuam.

E aí temos. Acentos a mais, deixem-se no tinteiro! Acentos a menos, usem-se quando mandam as regras normativas!

Uma resposta

  1. Agradeço o esclarecimento pois também tinha a dúvida se Raul era com acento ou não. Mas no caso do Raúl Castro eu penso que está correcto o uso do acento visto o nome ser de origem espanhola e aí ser correcto o uso do acento.
    Na minha opinião os nomes não se traduzem.
    Se os jornais escreverem acerca de George Bush também não vão colocar Jorge Arbusto. Certo?

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