“Tratam-se de”?! Não! “Trata-se de” – erros de “excelência” abusada

Antes de mais, ‘abusada’, porque são incorrecções (que abusam da norma); de ‘excelência’, porque são cometidos por utentes da língua, por vezes grandes plumitivos, que tinham (têm) por obrigação dar exemplo. E, não só não dão exemplo, como até, às vezes, se arrogam o direito de se obstinarem no erro, como quem diz que assim é que deve ser. Ou seja, decretam a abolição da norma e, logo a seguir, decretam como norma a sua opinião, que não passa disso e ainda por cima é… incorrecta. Vejamos então alguns exemplos (maus exemplos…).

“Só publicamos audiências do primeiro-ministro com outros governantes quando se tratam de primeiros-ministros […] “ (DN 13/NOV/07, p. 20. Negrito nosso).

Este erro é um dos que se ouvem e se lêem a toda a hora nas televisões, nas rádios e nos jornais, saído muitas vezes da pluma de grandes plumitivos, mesmo em jornais ditos de “referência”, como neste caso. Trata-se nem mais nem menos do que da expressão verbal tratar-se de que, nesta acepção, é impessoal, ou seja, só se usa, como todos os verbos impessoais, na 3ª pessoa do singular: trata-se disto, trata-se daquilo. Trata-se, aqui, de confusões gramaticais, de incorrecções, de ignorância. Corresponde ao francês il s’agit de, também impessoal, quer se trate de uma só coisa ou de muitas coisas. E quer se trate do português – trata-se de, tratou-se de, tratava-se de –, quer do francês – il s’agit de, il s’agissait de –, os dois casos têm a ver com o latino agitur (= trata-se), donde herdaram, certamente, a sua impessoalidade.

Outro caso: “A Al-Arabiya exibiu duas novas fotografias de soldados americanos, pousando [sic] ao lado de um iraquiano morto enquanto sorriam e exibiam os polegares erguidos, indicando que se tratavam [sic] de novas imagens de abusos cometidos em Abu Ghraib.[…] “ (DN 21/Maio/07, p. 14)

Vejamos, devidamente corrigida, a incorrecção referida (segunda sublinhada): “…indicando que se tratava de novas imagens de abusos cometidos…”. Vejam bem: “que se tratava” e não “que se tratavam”. Digo-lhes uma coisa: se eu fosse a contar as vezes que, num só dia, leio ou ouço esta incorrecção linguística, era capaz de passar da dezena…

Na segunda linha da citação, podemos ver outro erro que, já agora, vamos também tentar explicar: trata-se do verbo pousar, incorrectamente usado em vez de posar. Temos em português o neologismo posar (pronunciar como se o ‘o’ tivesse acento circunflexo) que nos veio do francês poser e que, segundo os dicionários, que de data recente o registam como neologismo/galicismo, significa: “Tomar posição conveniente para se deixar pintar ou fotografar. / Fazer-se notado, assumir atitudes de quem está sendo muito observado.” Presente do indicativo: eu poso, tu posas, ele posa, nós posamos, vós posais, eles posam. No texto jornalístico, confundiu-se posar com pousar que tem significado diferente, deriva do latino pausare e significa: colocar, pôr, assentar. Podem ser considerados parónimos e é daí certamente que vêm estas confusões. De notar que o francês poser abrange os significados dos dois parónimos portugueses.

Senhores jornalistas, orais ou escreventes, daqui lhes peço, pelas alminhas que lá têm, que não cometam mais esses abusos linguísticos. Trata-se, para classe de tanto poder, de coisas que têm a ver com honra, com brio, com orgulho de classe, pois então!…

6 Respostas

  1. gostei muito da explicação, mas tenho uma duvida: a partícula “se” do verbo tratar-se não pode ser indice de indeterminação do sujeito, pois não se trata de sujeito indeterminado certo? então a que classe gramatical ela pertence??

  2. Gostava de referir dois pontos, um em relação ao texto, outro em relação ao primeiro comentário. Começando pelo segundo ponto, por ser mais curto, julgo tratar-se de uma partícula apassivante, como em ensinou o meu professor do secundário (já lá vai tempo!).

    O primeiro ponto diz respeito à confusão ‘pousar’ / ‘posar’. Vê-se muito hoje em dia, juntamente com outra confusão muito parecida: ‘poupa’ / ‘popa’. Não querendo ser regionalista, creio que neste caso tem razão de ser chamar a atenção para que a origem deste erro me parece estar na forma como se pronunciam os ditongos no centro-sul do país e, possivelmente também por influência das novelas brasileiras, cada vez mais no resto do território.

    Eu cresci ouvindo e dizendo os ditongos bem pronunciados, e creio que ainda é essa a norma no norte. Um ‘ou’ é realmente feito por dois sons, começando em ‘ô’ mas descendo até ao ‘u’. No entanto, nos falares que já referi acima, é frequente o ‘ou’ ser lido como ‘ô’ ou até ‘ó’. É clássica a crítica, aqui por estes lados, ao ‘óvistes?’ de Lisboa. Relembro também os autocolantes dos ‘ ‘tô …’ que vinham com os bollycaos quando eu era miúdo, onde se vê a passagem de ‘estou’ para simples ‘ ‘tô ‘.

    Quando realmente se lê ‘poupa’ e ‘popa’ da mesma maneira, ou neste caso ‘pousar’ e ‘posar’, torna-se mais fácil fazer confusão. Gostava de referir que este tipo de confusão também se vê noutros sítios em que a pronúncia tem mesmo de ser igual. Por exemplo, noutro dia recebi um mail dos serviços técnicos da universidade dizendo que a ligação à rede tinha caído ‘á uma hora’. Já para não dizer que o acento não pode ser assim, fiquei sem saber se a falha tinha ocorrido à 1h da manhã, ou às 8h, uma vez que o mail foi enviado cerca das 9h. Num falar como o brasileiro em que as vogais são quase todas abertas, o potencial para erros é ainda maior, e por isso é frequente verem-se hipercorrecções do tipo: ‘ajudar à levantar o moral’.

    Pessoalmente, adoro os ditongos e quero continuar a dizê-los, e acho que a língua só fica mais pobre quando se perdem estar diferenças que ajudam a distinguir as palavras. Quanto mais ambígua for a língua, mais ela perde em capacidade de comunicação de informação, por exigir maior esforço por parte do ouvinte para decidir qual o significado pretendido.

  3. O “se” da oração: quando se trata de primeiros-ministros.
    Este “se” não pode ser partículo apassivador, eis que a preposição “de” é de uso obrigatório.
    O verbo “tratar”, nesta oração, tem o significado de referir-se, tratan-se, pois, de parte integrande do verbo.
    Conclui-se ser uma oração sem sujeito.
    “se” partícula apassivadora, o verbo é transitivo indireto e deve concordar com o sujeito que está presente na oração: tratam-se moléstias graves (sujeito paciente), ou seja, moléstias graves (sujeito paciente) são tratadas (falta o agente da passiva).

  4. Refaço o comentário anterior por erros de digitação.

    O “se” da oração: quando se trata de primeiros-ministros.
    Este “se” não pode ser partícula apassivadora, eis que a preposição “de” é de uso obrigatório.
    O verbo “tratar”, nesta oração, tem o significado de referir-se, trata-se, pois, de parte integrante do verbo.
    Conclui-se ser uma oração sem sujeito.
    “Se” como partícula apassivadora, ocorre quando o verbo é transitivo direto, devendo concordar com o sujeito que está presente na oração: tratam-se moléstias graves (sujeito paciente) neste hospital, ou seja, moléstias graves (sujeito pacientes) são tratadas neste hospital (não existe agente da passiva).

  5. Bem-haja por assinalar e corrigir os atropelos constantes à nossa língua.
    Aproveito para indicar um tb corrente: ter a haver com isto ou aquilo por ter a ver com isto ou aquilo.
    Cumprimentos.
    José-Augusto de Carvalho

  6. Permiti-me republicar este seu tão relevante texto no meu blog http://vivoedesnudo.blogspot.com.
    Os meus cumprimentos.
    José-Augusto de Carvalho

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