“Os Burros” e uma Nota etimológica

Ao ler o livro Os Burros, de Cândido Ferreira, o leitor, chegando ao fim, se tiver a ideia de virar o livro de pés para o ar, deparará com outra capa quase igual, ilustrada pela mesma pintora, com o mesmo título mas, desta vez, o subtítulo entre parênteses é “(Livro inacabado)”, repetido – título, subtítulo e autor – na primeira página útil e, depois de um belo naco de prosa poética – “O outro livro que vos deixo” – também assinado, é o leitor desafiado a “tentar explorar caminhos…” , ou seja, a continuar o livro que, do outro lado, tinha acabado de ler… Nas páginas em branco que, no livro, se seguem, tentei responder ao desafio, da forma que ia pensando enquanto ia estando atrelado à “carroça” dialítica…, para onde os deuses me mandaram, a cumprir a minha função de burro (‘de carga’ certamente, pois não me cabia na cabeça que fosse ‘de estimação’…). E, para começar, exarei, nas duas primeiras páginas em branco, a seguinte ‘Nota etimológica’ que me parecia poder enriquecer o fio condutor da obra, acabada e “inacada”, e dar uma certa explicação da nossa etimologia (queria eu dizer: da etimologia dos nossos burros…):

Nota etimológica: asnos da Europa, burros na Europa
Os burros da Europa (ou na Europa) têm uma explicação etimológica. Os Romanos, ao burro, chamavam-lhe asinus (equus asinus) o que, lá para os lados da Itália, se manteve quase igual – àsino (burro, por lá, significa manteiga, com o mesmo étimo do beurre gaulês: butyrum); pelas Gálias, deu em âne (de burro, por aí, nada); cá para os lados mais ocidentais, em toda a Ibéria, veio a dar em asno. E assim, ficaríamos com o mesmo étimo para quase toda a Europa latina:

asinu > àsino > âne > asno.

Aconteceu, porém, que, cá pela Ibéria, o nome mais vulgar que de há muito se deu ao animal foi burro. Como se deu isto? Foi que, dizem os entendidos, entre todas as espécies de asinus, por aqui abundava uma que se chamava asinus burrus (burrus-a-um, adjectivo latino que significa vermelho, ‘ruço’, palavra que ainda se usa entre nós como adjectivo, como por exemplo, em “tijolo burro”). Daí, como facilmente se compreende, por cá, todos os burros, “de carga ou de estimação”, passaram a ser mesmo burros. Asno reservou-se, como é sabido, para um nível semântico um tanto diferente.

E agora? Seria caso para perguntar: será que os nossos mamíferos perissodáctillos são asnos como os outros da Europa, ou serão eles burros, envergonhados, aqui às portas da Europa? Ou então, e a propósito ou despropósito, com Vicente Jorge Silva: “Que país é este onde, na última privatização da Galp, a procura excedeu cerca de vinte vezes a oferta, rendendo mais de mil milhões de euros aos cofres do Estado, mas em que a sustentabilidade das políticas sociais se mostra cada vez mais problemática?” (in DN de 25/Out./06, p. 8).
Estaremos nós condenados a manter os burrinhos à chuva, às portas da Europa, já que não conseguimos ter os àsini, os ânes (ou asnos que fosse) na Europa ?!…

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