O pronome pessoal (3ª pessoa) complemento verbal: ‘o, a, os, as, lhe, lhes’

“A doença ataca o sistema nervoso central. T. M. tenta-a retratar o mais fiel possível, fazendo passar uma mensagem positiva com que é preciso viver”.  (24horas Domingo  13/4/08, Revista, p.18).

O uso do pronome pessoal complemento verbal é um caso que às vezes, a alguns falantes, pode parecer bicudo. Por isso, acontecem incorrecções como a que se verifica na frase transcrita. Vamos reescrevê-la, corrigindo a sintaxe, que de sintaxe se trata. Ou melhor, é uma questão morfossintáctica, pois também implica a morfologia (do pronome e do verbo). O pronome pessoal ‘a’ da expressão a negrito é o complemento directo, não do verbo tentar, mas sim do verbo retratar, que é o verbo principal da expressão perifrástica ‘tentar retratar’. Daí que o pronome deveria estar depois do dito verbo retratar. Assim: “T M. tenta retratá-la”. Estão a ver, o pronome – o, a, os as – , forma do pronome, 3ª pessoa singular e plural, exclusiva da função sintáctica complemento directo. Se vem depois de forma verbal terminada em ‘r’ ou ‘s’, assume a forma ‘lo, la, los, las’. Vejamos, em exemplos, a diferença do seu uso, antes do verbo e depois do verbo terminado em ‘r’ ou ‘s’:

Ele tenta retratá-la. Depois de a retratar, ficou satisfeito. Tu retrata-la; tu a retratas. Depois de tê-la retratado… Depois de a ter retratado…

No último exemplo, o pronome pode colocar-se depois ou antes do verbo auxiliar, porque se trata, não de perifrástica, mas de tempo composto (infinitivo composto). Querem ver outro exemplo com tempo composto?

Todas as personagens, tem-nas ele retratado muito bem. ( Pretérito perfeito composto).

O mesmo pronome assume a forma precedida de ‘n’, porque se segue a uma forma verbal terminada em nasal. Mas as três formas são, todas três, o mesmo pronome pessoal complemento directo: o, a, os, as.

Este é o tal pronome que, no português do Brasil (o ‘brasileiro’ ou brésilien, como dizem os franceses), praticamente não se usa, sendo tendencialmente substituído pela forma de complemento indirecto: lhe, lhes. O ‘lhe’ e ‘lhes’, para a maior parte dos falantes do Brasil (e eu testemunhei esse uso também em falantes de Angola, inclusive em aulas de Português), funciona como complemento directo. Em todos os níveis de língua. Exemplos: “eu lhe amo” por “eu amo-o” ou “eu o amo”. E, mais curioso ainda, na linguagem corrente, o ‘lh’, consoante palatal, despalatiza-se, e até se simplifica reduzindo-se o ‘lhe(s)’ a ‘le’: “Eu le amo”… Amantes das novelas, ponham bem a orelha à escuta, e hão-de ver se tenho ou não tenho razão…

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