A metamorfose de cabeça… em cauda!

‘Molestado’ pelas constantes notícias que na Sexta-feira nos chegaram via rádio, televisão, e que por todo o lado se ouviam, na rua , nos cafés, na praça pública, vozes só de lamúria e ‘vil tristeza’… tive um sonho. Estava a reler mais uma vez Os Lusíadas. Ia no Canto III, estância 20:

Eis aqui , quási cume da cabeça
De Europa toda, o reino lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Phebo repousa no Oceano.
[…]

Luís de Camões, Lus. III, 20

(Ortografia d’A Chave dos Lusíadas, 5ª Ed. A. Figueirinhas, 1944)  

De repente, aparece-me Camões, como que a querer ser-me prestável …
– Triste, a reler o meu Poema! Porquê, António?
Foi então que me lembrei de me queixar ao Épico que consentiu estabelecer comigo um estranho diálogo.
– Oh! Querido Luís! És Tu?! (Posso tratar-te por tu?)
– É claro que podes! Tantas vezes falaste de mim aos alunos!
– Para o bem e para o menos bem, meu caríssimo Luís… Enquanto cantaste a grandeza nossa – a tal grandeza lusa -, mas também a nossa vileza… Lembras-te?
– Então não lembro! E, já que estás a reler a minha, quero dizer, a ‘nossa’ Epopeia, dize-me, António, o que te dá assim tanta tristeza, hoje? Olha que, por muitas lamúrias que ouças, por muita desgraça que vos afecte, agora, não é nada de que eu não tenha avisado o meu, quero dizer, o ‘nosso’ Povo Luso. Relê tudo e até ao fim, sem te esqueceres dos meus comentários pessoais, propriamente mais líricos do que épicos. Para não me alargar mais, vou dizer-te de cor só duas estâncias, quase no fim. Queres ouvir’
– E tu ainda me perguntas, Luís, se eu quero ouvir-te?
– Lá vai então:

No mais, Musa, no mais, que a lyra tenho
Destemperada e a voz enrouquecida;
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se accende o engenho,
Não no dá a Pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e da rudeza
D’ũa austera , apagada e vil tristeza.

E não sei por que influxo de destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto
Que os ânimos levanta de contino
A ter pêra trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó rei, que por divino
Conselho estais no régio solio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassallos excelentes.

(Lus., X, 145, 146)

– Percebe-se bem, nos últimos versos desta estância, que o teu talento precisou de recorrer à tua capacidade poético-diplomática…
– Pois, António… E mesmo assim, apenas consegui que o ‘tresloucado rei’, a custo e com alguma reserva, autorizasse o Poema, e me concedesse uma miserável tença, condicional, que não evitou que eu morresse na miséria…
– Uma tença… precária, como se diz agora dos salários ou das pensões de não sei quantos milhões de portugueses… Então como agora, a precariedade, a pobreza, a miséria, não é?…
– Sabes? Quando eu morri, 1580, já o País estava impregnado daquilo que, já nessa altura, dois anos depois de Alcácer-Quibir, definitivamente se viria a transformar no mito sebastianista, e que, reforçado ainda por outros mitos, sobretudo de cariz religioso, condiciona a mentalidade deste nosso querido Povo Lusitano…  Que pena eu tenho do meu Povo!…
– Eu também… Mas, Excelente Luís,  permite-me que volte  à estância 20, aquela que me surpreendeste a ler. Como foi possível a metamorfose? Então, o reino lusitano, passou de cabeça a cauda da Europa toda? Como foi isso possível. Olha que até a Eslovénia, até a República Checa já nos passaram a perna, tendo entrado para a União muito depois de nós!… Na cauda da Europa?! Em tudo?! Achas alguma explicação? Mesmo que nos tenhas avisado no Poema, previas assim tanto e tão depressa?!
– Na verdade, acho que ultrapassaram todas as minhas previsões. E, se queres que seja franco, além das advertências que escrevi, não sei bem o que vos hei-de aconselhar agora. Se calhar teríamos de fazer uma alteração mas é à letra do Poema…
– Mas tu sabes que eu não sou poeta à tua altura…
– Não faz mal. Olha, eu poderia dar-te uma ajudinha na métrica. Nem é preciso mexer na rima. Basta mexer num verso. Assim. Toma nota:

Eis aqui, cauda já, não mais cabeça,
De Europa toda, o reino lusitano,
[…]

– ‘Cauda’ ou ‘quási cauda’, Luís?
– Eu queria manter o ‘quási’, mas, sabendo das manchetes de toda a comunicação social de hoje, achei melhor eliminar o advérbio…

O nosso querido Luís, como por encanto, desapareceu do sonho… e deixou-me a acordar gritando por ele:

– Luís! Luís Vaz!, Luís Vaz de Camões!…

Já acordado, comentei, com os meus botões, o sonho e a realidade:

– Como foi possível a metamorfose de  ‘cabeça’ em ‘cauda’?!

E fiquei a dedilhar, na fronha, uns decassílabos que se apropriassem:

Como (e quem e porquê) se transformou
A cabeça de Europa toda, em cauda?!

Mas, sem jeito nem estro, fiquei-me só a pensar… e não voltei a adormecer.

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: