A Sesta: para uma abordagem histórica

Na rubrica 233 de Tento na Língua! aborda-se a etimologia da palavra sesta. Poderíamos agora tentar abordar a sua história, ou seja, desde quando existe, na língua portuguesa, a palavra sesta com o significado que ainda hoje lhe atribuímos e, se pensarmos na APAS – Associação Portuguesa dos Amigos da Sesta – a conotação afectiva que os sócios, naturalmente, lhe emprestaram. Eu posso falar por mim, não só como useiro e vezeiro da dita, mas também como sócio fundador que tenho a honra de ser  ( nº 4). Por aí algures há-de haver uma fotografia, à volta do principal Fundador, Prates Miguel, que não me deixará mentir. Lá se poderá ver a minha carranca. À entrada do Tribunal de Ansião, onde se localiza o Cartório Notarial  que lhe deu, à APAS, estatuto legal. Mas vamos então ao que me trouxe aqui.
Nos tempos do latim clássico, não existia, ainda, no Império, a palavra sesta. Existia a que havia de ser o seu étimo, como na anterior se disse – sexta, feminino do adjectivo sextus, sexta, sextum, que servia apenas para expressar o numeral ordinal correspondente ao cardinal sex (6, ou melhor, VI). Além disso, servia também, às vezes, como nome de pessoa (p. e. Sextus, filho de Pompeu).
Isto não quer, porém, dizer que os Romanos não tivessem já o costume bem arreigado de dormir a sesta, de bater a sua sorna. Não! Mas não diziam: vou dormir a sesta. Diriam, por exemplo: meridiatio (Cícero.), inciticius somnus (Varrão), meridianus somnus (Plínio); dormir a sesta: meriditionibus uti (Cícero), meridie conquiescere (César), requiescere, recumbere (Cícero) (Cf. Torrinha, Dic. Português-Latino) *
Então, e a sesta, quando começou a usar-se em português? Segundo José Pedro Machado, no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, só em finais do século XII (1193), ela nos aparece em documentos escritos: Revista de Portugal, vol. XX, p. 330 e Cantigas de Santa Maria (St. Maria, Nº 15, p. 48), mas quanto à variante seista, ela já aparece no século XI (Vide Portugaliae Monumenta Histórica, Diplomata et Chartae).
A brincar, a brincar, poderíamos até imaginar aqui um diálogo entre dois compinchas romanos sobre o assunto. Em latim mais ou menos macarrónico, claro, ainda que respeitando as regras gramaticais e usando o vocabulário dos clássico, como acima se refere. Então lá vai.

– Salve, amice! Dic mihi, meriditionibus uterisne?
–  Salve tu quoque! Ita, mi carissime, et ego meriditionibus utor.
– Hodie, isne recumbere?
– Hodie, crastina die et semper, volentibus deis.
– Bene facis, mi care. Dicunt meriditionem valde esse beneficam   saluti nostrae. Num verum est?
– Ita verum est!
– Sed, sexta hora veniente, eamus meridie conquiescere.
– Quae cum ita sint, eamus enim!
          
 Tradução          
– Olá, amigo! Diz-me, costumas dormir a sesta?
– Olá, tu também! É claro, caríssimo, também eu costumo dormir a sesta!
– Hoje, vais passar pela soneca?
– Hoje, amanhã e sempre, se os deuses quiserem.
– Fazes bem, meu . Dizem que a sesta é muito benéfica à nossa saúde. Não é verdade?
– Pois claro que é verdade!
– Mas, estando mesmo a chegar a hora sexta, vamos bater a sorna do meio-dia!
– Já que assim é, vamos pois!

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*Tradução mais ou menos literal  das palavras e expressões latinas meridiatio (soneca do meio-dia, sesta) inciticius somnus (sono inserido, enxertado), meridianus somnus (sono meridiano [do meio-dia]), meriditionibus uti (usar, ter o costume das sonecas do meio-dia), meridie conquiscere (repousar ao meio-dia), requiescere (descansar) e recumbere (reclinar-se).

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P.S.: Muito me agradaria estar presente na II Conferência Nacional da Sesta, em Alcanena, 27/Set/08, promovida pela nossa APAS. Mas é sábado: tenho de ir dormir a sesta ‘espetado’ na máquina dialítica, onde, inter meriditiones, me lembrarei de todos os Amigos da Sesta e, portanto, amigos meus. Um abraço.

Pombal, 15/06/08                                                               

António Marques
(Sócio nº 4)

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