Hífen: um senhor muito patusco…

( Por ter encontrado, algures no ‘Google’, alguém a queixar-se do hífen, do seu uso complicado tendo em vista as normas ortográficas vigentes, lembrei-me de trazer para aqui uma rubrica completa do livro Tento na Língua! 3 (rubrica n.º 305), contrariando embora a intenção inicial convencionada neste blogue. Aí vai, pois. )

Merece uma história este senhor. História de que ele será, naturalmente, o protagonista.

Foi há dias que um jornalista d’O Correio de Pombal abordou comigo o tema: o uso correcto do hífen conforme a lei ortográfica vigente que, já o dissemos e voltamos a dizê-lo, são os decretos decorrentes da reforma de 1945: Decreto nº 35 228, de 8/Dez./45 e o decreto-lei nº 32/73 de 1/Fev./73). Quem quiser certificar-se pode requisitar os números do Diário da República que os publicam. Eu confesso que nunca tinha sentido necessidade de lá ir. Porquê? Porque confiei nas gramáticas, nos dicionários, nos prontuários e na consulta do célebre Vocabulário de Rebelo Gonçalves que, por incumbência governamental, se encarregou de o elaborar em conformidade com o primeiro dos referidos decretos… Mas vamos lá então ao senhor Hífen (escrevo com letra maiúscula porque o arvorei aqui na categoria de personagem da minha história). Hífen, palavra erudita que, como tantas outras eruditas, nos vem do grego através do latim – hyphen – , advérbio que significa: juntamente. Nas línguas que nos são mais próximas, só o português e o inglês adoptam a forma herdada do grego.

Os Italianos chamam-lhe trattino (tracinho); os Franceses, trait d’union (traço de união) e dele dizem na Grammaire du français contemporain (Larousse):

“O traço de união é dos sinais [de ortografia] mais bizarros; em princípio, ele marca a ligação de duas ou mais palavras separadas, em particular nos nomes compostos. Mas opondo trinta e nove palavras em contre- com traço de união a quarenta e três sem traço de união, na sua edição de 1835, a Academia fabricou para uso dos tipógrfos um casse-tête de que seria já tempo de os libertar.” (A. Dauzat).

Os Espanhóis chamam-lhe guión, nome que lhe vem certamente da sua função de dividir as palavras na translineação (= mudança de linha) e reduziram muito o seu uso; basta dizer que não é usado, como nós fazemos, para ligar os pronomes pospositivos às formas verbais; juntam-nos simplesmente sem guión.

Bizarro ou patusco, venha o diabo e escolha. Em português, bem se pode dizer que ele não é menos bizarro do que em francês. Trata-se, bem ao contrário, de um senhor muito patusco que é capaz de fazer soar as estopinhas a quem faça questão de o usar correctamente em todas as situações exigidas pela regras ortográficas. O hífen tem, em português e em francês, usos muito parecidos. Mas o mais bizarro uso na nossa língua é o que tem a ver com a ligação de pronomes a formas verbais em geral e com o verbo haver em especial. E onde ele se torna em verdadeiro bico-de-obra é no seu emprego em palavras com prefixos. Aqui se aconselha quem queira sair-se, nesta questão, mais ou menos airosamente, a consulta do Prontuário ortográfico e guia da língua portuguesa de Magnus Bergström e Neves Reis (Editorial Notícias, 38ª edição, págs. 29-35) segundo as regras vigentes. Mas uma boa gramática também serve.

É claro que se nota uma certa tendência a simplificar o seu uso. Mas isso faz-se sem lei nem roque, ao arbítrio da ousadia de cada utente, pois não temos uma entidade, uma instituição que, competentemente, cuidadosamente, oficialmente, se ocupe dessa e de outras tarefas que tenham a ver com a norma ortográfica e bem assim a norma linguística em geral. Parece que devia ser a Academia das Ciências, mas infelizmente, e pelos vistos, não é!… E assim, em questões de ortografia, não é só o senhor Hífen que anda por aí, desorientado, na cabeça dos utentes, na língua dos falantes escreventes e na pluma de plumitivos mais ou menos qualificados…

Quem nos acode? Quem acode à nossa Pátria-Língua?!…

( Cf. Tento na Língua!… – 3, rubrica 305)

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