A patusca tmese

Comecemos por dizer o que é a tmese: “s. f. (gr. tmesis, lat. tmese). Gram. Figura que divide o verbo para lhe intercalar o pronome como em dir-te-ei, dar-lho-ia, etc. Separação de dois elementos de uma palavra, pela intercalação de uma ou várias outras palavras.” (Lello Prático Ilustrado).

Isto vem a propósito de um erro gramatical cometido em tmese, que pude ver escrito na SIC NOTÍCIAS, em 16/04/07, pelas 14.20 h: “…fazer-se-ia outra reunião…”.

Vejam bem, a dita tmese constrói-se partindo a forma verbal, geralmente o futuro ou o condicional, assim por esta ordem: infinitivo+pronome+característica e desinência pessoal dos ditos tempos, como se pode verificar na tmese atrás apresentada e que nos serve de exemplo, ainda que incorrecto. E porquê incorrecto? Pois, porque se trata de um verbo irregular, cujo futuro é farei, cujo condicional é faria e não ‘fazerei’ e ‘fazeria’, se o verbo fosse regular. Em consequência, a forma tmética correcta é, pois: far-se-ia.

A mesma incorrecção poderá acontecer, por exemplo, com o verbo dizer, com o futuro direi e condicional diria: di-lo-ei e dir-se-ia, e não ‘dizê-lo-ei’ ou ‘dizer-se-ia’. (A propósito, cf. Tento na Língua!… – 1, rubrica 106 – “O caso das sanduíches verbais”). Diga-se ainda que à tmese em conjugação pronominal também se pode chamar mesóclise, quando o pronome corta a palavra e mete-se-lhe no meio. (Veja-se também: ênclise, próclise, apóclise).

A propósito, e já que estamos em maré de ‘acordos’, convém acrescentar aqui uma palavra. É que o português-brasileiro raramente utiliza a tmese (mesóclise). E porquê? Simplesmente porque a tendência, nessa língua, quer no escrito quer no oral,  é para  usar o pronome antes do verbo (próclise), pelo que seria difícil, para não dizer impossível, cometer o erro que motivou este comentário: …”se faria outra reunião”. Ou, como cantaria Adriana Calcanhoto: ‘um dia destes eu me casarei contigo’ (‘me casarei’, não ‘casar-me-ei’; se o verso não é bem assim, assim me convinha que fosse, para exemplo…).

7 Respostas

  1. ótimo!
    tem uma boa explicaçao…
    parabéns

  2. A mesóclise é obrigatória em textos oficiais e de norma culta/padrão do português, cá no Brasil. Acontece que, aqui, poucas pessoas desconhecem esse incrível fenómeno único da língua portuguesa, sendo portanto não muito utilizado na problemática língua falada do Brasil, e pelo que andei lendo, em Portugal está caindo em desuso, o que acho um erro, tanto cá, como lá. E quando à próclise, quando seguida depois do sujeito, ou pronome, diz-se que estes são ‘atrativos’, e que a próclise não está incorreta, esta é a forma clássica que predomina no Brasil, a mesma com a qual nosso grande Camões escrevia suas obras.

    Um abraço aos irmãos portugueses! Somos dois países, mas somos uma única nação, a nação da língua portuguesa!!

    • PERFEITO,MUITO BOM. NAO E TRIVIAL LER COMENTARIOS DE PORTUGUESES ASSIM. PARABENS

  3. “(…)nessa língua(…)” ??? [referindo-se ao Português-brasileiro]. Agora, esteve mal, não?

    • NAO. A LINGUA É UM ORGANISMO VIVO, VIVO….

  4. não entendi o comentário do Victor ele afirmou que:” aqui poucas pessoas desconhecem a mesóclise”???????????????????

    • Vish, eu me confundi, poucas pessoas CONHECEM a mesóclise😉

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: