“Perdoá-lo(s)” ou “perdoar-lhes” – sintaxe de verbos errada ou em evolução?…

Perdoar. Atenhamo-nos à definição significativa constante do mais antigo dicionário que tenho aqui à mão – Dicionário Complementar da Língua Portuguesa, de Augusto Moreno, 1936 -:

“ (L. perdonare), t. Conceder perdão a; absolver de; desculpar; poupar.”

Agora, à do meu dicionário mais recente, também aqui à mão – Porto Editora 2003 (Acho que morrerei sem comprar dicionários do ‘desacordo’):

v. tr., intr 1 conceder perdão a; 2 remir (uma dívida); absolver; 4 desculpar; 5 poupar (Do b. lat. perdonare, “id”).

Se quisermos entender a sintaxe deste verbo, verificamos que o A. Moreno o classifica apenas de transitivo (t.), enquanto o P. E. 2003 o classifica de transitivo/intransitivo (tr, intr).

Ora, pensando bem no caso, o que estou por aí ouvindo e lendo, cada vez com mais frequência, leva-me a considerar que nos é dado assistir a um fenómeno evolutivo da língua portuguesa. Antigamente toda a gente dizia: Perdoar as dívidas a alguém, perdoar-lhes as dívidas; perdoar os pecados a alguém, perdoar-lhes os pecados: perdoar-lhes alguma coisa. Ou seja, nestes exemplos, perdoar é um verbo transitivo, de complemento directo de coisa e indirecto de pessoa. E esta sintaxe veio para a nossa língua directamente da Bíblia, do Evangelho: “Perdoai-lhes, Senhor, que não sabem o que fazem”; “Perdoai-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores” (tradução directa do latim: dimitte nobis debita nostra sicut et nos dimittimus debitoribus nostris – compl. directo de coisa, compl. indirecto de pessoa). O que se vê/ouve por aí cada vez com mais frequência é a substituição do pronome complemento indirectoperdoai-lhes, Senhorpelo correspondente pronome complemento directoperdoai-os, Senhor: ‘temos de perdoá-los’ por ‘temos de perdoar-lhes’…

Quase a mesma coisa se vai dando com o verbo chamar, com uma influência do brasileiro que está aí lançada, eu diria, definitivamente: é o chamar de. Chamam-lhe de isto, chamam-lhe de aquilo… Ou chamam-no de isto, chamam-no de aquilo… E olhem que não estou aqui a protestar nem a contestar. Estou simplesmente a considerar que é possível aos falantes assistirem a fenómenos evolutivos da língua que falam, que, pois claro, é uma língua viva…

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