Escritores, epígonos, prémios literários e marketing

Num dia destes, o DN publicou uma longa entrevista com José Rodrigues dos Santos, a pretexto do seu último livro O Sétimo Selo. E, a seguir, o jornal desenvolveu uma operação de marketing que foi até oferecer livros desse autor, grátis, apenas tendo de telefonar quem quisesse habilitar-se… Dias depois, outra grande entrevista com Rodrigo Guedes de Carvalho, a pretexto também do seu último romance O Canário. Depois foi a vez do escritor Miguel de Sousa Tavares, também a pretexto do seu último romance Rio das Flores.

No DN de 28/Out./07, domingo, a entrevista, de quatro páginas do jornal a começar na segunda, calhou ao Nobel José Saramago, onde este, além de coisas muito interessantes da sua vida literária, diz também, a propósito de Rodrigues dos Santos e Miguel Sousa Tavares:

“Bem, essa discussão sobre o que deveria ser ou poderia ser uma literatura maior também nos levaria longe. Mas como eu não li realmente nenhum deles, não posso ser efectivo juiz nesta matéria […] O que digo é que a forma de lançar os autores, estes autores, obedece a um marketing implacável […] Como não os li, não posso confirmá-lo, mas não tenho dúvidas de que se possam encontrar ali méritos literários. Aquilo de que eu não gosto, e tenho direito a isso, é a operação de marketing, que essa não tem nada a ver com literatura”.

Nisto, eu tenho de estar com Saramago. Não é pelo marketing que se me depara no jornal que todos os dias leio que vou a correr (se calhar nem mesmo que fosse devagar…) comprar e ler os livros assim publicitados. Mas tenho de acrescentar que também não é por alguém ter ganho o Nobel que vou a correr ler alguma coisa dele…Nem mesmo Saramago. Antes que ele fosse Nobel, eu já o tinha lido o bastante para o admirar como grande criador literário. Mas tenho de confessar que os últimos não os li.  E, em boa verdade, não me apetece…E por falar em marketing, gostaria eu de perguntar se não é o mesmo marketing, mais ou menos, aquele que o Nobel está usando com estas entrevistas e outras?

E, já agora que falamos de escritores, porque não falar também de epígonos e prémios literários? É que tenho aqui uma notícia muito interessante, já com algum tempo, que tem como título “Valter Hugo Mãe ganha Prémio Saramago” com o subtítulo ” ‘o remorso de baltazar serapião’ (orbs) foi escolhido por unanimidade“. E, pergunto eu, escolhido por quem? Ora, escolhido por um júri integrando, não sei se como presidente, Pilar del Rio, mulher de José Saramago. E da obra premiada diz Saramago: “Este livro é um tsunami.  Um tsunami linguístico, estilístico, semântico, sintáctico. Um tsunami no sentido do impacto, da força”. (Ver contracapa de orbs ). Sim, com o tsunami, também eu concordo. Mas no sentido mais destrutivo da palavra…E, pelo que me tinham dito, fiquei com a impressão de que ele baniu do seu estilo, digamos in limine, as letras maiúsculas. E quanto à pontuação? Nada como ver com os meus olhos. Adquiri, pois, os dois livros de ficção de valter hugo mãe (escrevo com minúscula, não vá o autor ofender-se…) e verifiquei, no remorso de baltazar, que há por ali muita imitação do Patrono, a começar pela ‘despontuação’… (Cf. rubricas 321-324). Mas há uma inovação: banir por completo as maiúsculas, começando logo pelo seu nome, continuando em tudo o que é nome próprio. Inovação só pela inovação, parece-me… Não nego que haja talento, no que respeita à inventio, ao discurso narrativo, às personagens e acção. Mas, não é que o serapião me lembra o pícaro Malhadinhas de Aquilino?… No segundo livro – o apocalipse dos trabalhadores –  repetem-se as ‘inovações’ do primeiro.. Na esteira do Patrono, ousou levar as coisas mais longe, como de resto costuma acontecer em casos destes. A pontuação de hugo mãe não é um auxiliar do leitor, para melhor perceber a sintaxe: ela é um constante e grosseiro ruído a dificultar (e de que maneira!) a nossa leitura! O ponto final passou a ter, também, a função do ponto de interrogação, que pura e simplesmente foi banido (Lembrar-me eu dos dois de que nuestros hermanos não prescindem na frase interrogativa: um de pé para o ar no princípio, outro de pé para o chão no fim…); dois pontos, ponto-e-vírgula e exclamação não existem…

Não será ele então um epígono do próprio Saramago? De resto, logo o “baltazar” do título  já me tinha remetido um pouco para isso… Por este andar, talvez seja caso para perguntar: e se um dia algum escritor se lembra de construir um tipo de discurso com as letras de pernas para o ar?… Ou a escrita com as linhas da direita para a esquerda, à maneira de algumas línguas semiticas?… Será isso criatividade,  inovação por inovação, nem que seja um grandessíssimo disparate que, estou certo, ninguém vai tomar a sério? Até nos apetece dizer: Ó grande Garrett, ó grande Eça, ó grande Brandão, ó grande Pessoa, ó grande Aquilino, ó Agustina, ó Mário de Carvalho, ó tantos e tantas outros e outras, mortos ou vivos, valei-nos!

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