Meia página d’ o apocalipse

“maria da graça disse, trataram-me como culpada, sem direito a nada, como se tivesse sido culpada de algum assunto. culpada. queriam que eu lhes respondesse sim a tudo, e à maior parte das coisas não é de dar sentido, e eu é que sei. a quitéria não queria ver nada disso, preferia acreditar que a polícia tinha de suspeitar de tudo. a outra continuava dizendo que fora menosprezada, o mais que lhe concederam foi a hipótese de levar o portugal consigo, porque de todo o modo não teriam melhor coisa para lhe fazer. são uns filhos da mãe, aquela parva da gente quental com o bigode duas vezes o do meu augusto, andava às minhas voltas a querer saber porque havia o maldito de enfeitar o quarto dos arrumos. porque era um pouco louco, como os génios, minha senhora, mas ela não ficava satisfeita, queria que eu lhe desse provas de médico, com coisas de microscópio e tudo, raios a partam. e depois. depois quase a mandei à merda, que a mim não me podiam acusar de nada, que ele se atirou sozinho com a vizinhança a ver e aos gritos. mandavas a gaja à merda e calavas-te. era como devias ter feito. dizias que só falavas com um advogado. e onde ia arranjar um advogado. eles têm na esquadra.”
( in “o apocalipse dos trabalhadores”, valter hugo mãe, Quidnovi, 1ª edição, pág. 71)

Agora imaginem vocês: resolvi eu fazer sobre o texto o exercício da rubrica 322 (vide), a saber, dar ao texto a pontuação convencional (o trabalho que tive para convencer o meu computador a usar as minúsculas em vez das maiúsculas que teimosamente queria manter…), usando os sinais diacríticos, usados na generalidade das línguas ocidentais, e que tanto ajudam à compreensão sintáctica, ao contrário desta pontuação que é, pois, mais um ruído na leitura…

“Maria da Graça disse:

— Trataram-me como culpada, sem direito a nada, como se tivesse sido culpada de algum assunto.

— Culpada?

— Queriam que eu lhes respondesse sim a tudo, e à maior parte das coisas não é de dar sentido, e eu é que sei.

A Quitéria não queria ver nada disso, preferia acreditar que a polícia tinha de suspeitar de tudo. A outra continuava dizendo que fora menosprezada. O mais que lhe concederam foi a hipótese de levar o Portugal consigo, porque de todo o modo não teriam melhor coisa para lhe fazer.

— São uns filhos da mãe, aquela parva da gente Quental com o bigode duas vezes o do meu Augusto, andava às minhas voltas a querer saber porque havia o maldito de enfeitar o quarto dos arrumos.

— Porque era um pouco louco, como os génios, minha senhora, mas ela não ficava satisfeita, queria que eu lhe desse provas de médico, com coisas de microscópio e tudo, raios a partam.

— E depois?

— Depois quase a mandei à merda, que a mim não me podiam acusar de nada, que ele se atirou sozinho com a vizinhança a ver e aos gritos.

— Mandavas a gaja à merda e calavas-te, era como devias ter feito. Dizias que só falavas com um advogado.

— E onde ia arranjar um advogado?

— Eles têm na esquadra.”

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