A crónica de Câncio e o Deuteronómio

Acabo de ler (in DN de 31/10/08, p. 9) importante crónica de Fernanda Câncio -“Visto do Deuteronómio” – sobre a mulher de Kismayu (Sul da Somália) apedrejada até à morte, em cumprimento da lei corânica em relação à mulher apanhada em adultério. Acho importante a crónica por toda a ideologia que nela expende a autora e ainda por ter posto no título o Deuteronómio. E que terá o Deuteronómio a ver com a coisa? – perguntará alguém. Pois tem e tem muito. Câncio sabe disso e fez a crónica, reflectindo e sugerindo conclusões. Mas, será que 50% dos seus leitores o saberão? E mais: será que 5% da gente da nossa terra – gente cristã católica – o saberá? Eu diria: nem 1%. Nem talvez meio. Então permito-me eu, com a devida vénia, estender a reflexão de Câncio.
Deuteronómio é o nome do quinto livro do Pentateuco (= 5 livros) que, de origem grega como os outros nomes, significa “Segunda Lei”. Atribuídos a Moisés, trata-se aqui (é o último dos 5) de confirmar a lei que ele tinha ditado, a começar pelo decálogo constante do Êxodo (o segundo dos 5). E então, o que é que tem a ver? Já digo. Considerando que o Corão foi escrito no século VII por Maomé, inspirado por Deus, claro, e que Maomé conhecia a Bíblia, sagrada escritura de judeus e cristãos, não podemos estranhar influências, quanto a costumes e leis, que nele se reflectem. E, tratando-se do estatuto da mulher, mais ainda. Vejam.
O machismo moisaico que tresanda em toda a Bíblia e que tansitou do Velho para o Novo Testamento (machismo judaico-cristão) e que ainda hoje perpassa (ou passa mesmo) por todas as igrejas cristãs, incluindo a católica, percebe-se que enforme também a cultura semítica dos árabes, a cultura islâmica. Não esqueçamos que hebreus e ismaelitas são todos filhos de Abraão: uns da mulher legítima; os outros da escrava… E, sempre antagonizados pelos patriarcas, que os varreram para o deserto, tiveram de arranjar um outro nome para o mesmo Deus de Abraão: Alá… E uma outra bíblia: o Corão…
Vamos lá então ao Deuteronómio. Da mulher se trata, sobretudo capítulos 21 – 24. Mas vejamos só o versículo 22 do cap.22:

“Se um homem desquitar moça virgem e alguém que a encontre na cidade tiver com ela cópula carnal, sejam ambos levados para a porta dessa cidade e os dois sejam massacrados à pedrada: a moça porque não gritou estando embora na cidade; o homem porque humilhou a esposa do seu próximo” .

E agora, passando do Deuteronómio (que é confirmação da lei) para o Êxodo (que é o livro da lei, a começar pelo decálogo – os dez mandamentos – capítulo 20), vamos ver que tratamento dá Moisés (quer dizer, Deus) à mulher. Para o sexto, que, segundo a Igreja, deve ser ‘guardar castidade nas palavras e nas obras’, a Vulgata diz simplesmente ne moechaberis (= não cometerás adultério); para o nono que, segundo a Igreja deve ser ‘guardar castidade nos pensamento e nos desejos’, na Vulgata está:

“Não cobiçarás a casa do teu próximo: nem desejarás a sua mulher, nem o seu escravo, nem a criada, nem o boi, nem o burro, nem tudo o que seja dele”

Vejam vocês que toda esta lista de coisas que Deus não quer que cobicemos, e que corresponde ao nono mandamento, não tem nada a ver com a concupiscência sexual, mas sim com a cobiça (ne concupisces) dos bens do próximo, entre os quais se encontra a mulher, como propriedade, ao mesmo nível da casa, do boi ou do burro…

Uma resposta

  1. […] sinédoque de Câncio Gosto, às vezes, de ler as crónicas de Fernanda Câncio. (Ver aqui). Mas também às vezes não me agrada. “Gostar dos Miúdos”, por exemplo (DN […]

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