Locutores, repórteres, relatores e outras locuções

Sigo, traduzido e/ou adaptado, o Larousse 3, acrescentado pelo recurso aos bons dicionários portugueses:

Dicção – Maneira de falar, pronunciação das palavras e debitação de frases: uma dicção clara. || Arte de bem dizer, de falar com uma pronúncia e uma modulação tão apropriadas quanto possível ao texto pronunciado: Seguir cursos de dicção. || Sin.: elocução [locução].
Diseur – [Que pena não termos ainda em português uma palavra que traduza bem a ideia de diseur. Por isso, recorremos com frequência a este galicismo]. Traduzo: Um bom diseur: aquele que se gaba de dizer bem, mesmo que não saiba muita coisa. Um bom diseur: pessoa que debita bem, declama com arte.
Elocução [locução) – Maneira de se exprimir, de articular os sons {os fonemas].
Locução – Maneira especial de falar, linguagem, frase.
Locutor – Relativo à locução; que fala. || O que pratica a locução, que fala, especialmente em público e por ofício. || Se locutor é “o que pratica a locução, que fala, especialmente em público e por ofício; pessoa que tem a seu cargo anunciar ao microfone os vários números dos programas e ler quaisquer comunicações ou textos destinados ao público no teatro, na rádio, na televisão”, então, posso chamar aqui à colação: locutores, repórteres, relatores, comentadores e outros “dizedores” (ah, aqui posso traduzir à letra, nem que seja a brincar-a-sério, o galicismo diseur! ).

Quero, pois, dirigir-me a todos os ‘dizedores’ da comunicação social. E desde logo atrevo-me a dizer que os há óptimos (poucos), bons (alguns), maus (muitos) e péssimos (bastantes).

Para começar, gritões e gritonas, não, nunca, muito obrigado! E ele há cada um e,sobretudo, cada uma! Por favor, senhoras e senhores do microfone ou da pantalha, não gritem! Em ocasião nenhuma, muito menos na condução de programas, mesmo (ou sobretudo?) em programas de entrenimento! Nem mesmo na reportagem! Então, por estarem a comunicar do exterior, é preciso gritar?! Sempre que se me depara um(a) repórter a gritar, aos berros, lembro-me daquela mulherzinha da aldeia que foi chamada ao telefone por alguém de Lisboa, pegava no telefone e punha-se a gritar, certamente porque tinha lá bem fixa na sua cabeça a ideia de que,”se é de Lisboa, como é que me vão ouvir se eu não gritar?!”: Sim!… Sou eu!… O que é?!… Fiquem sabendo, senhores(as) repórteres, senhores(as) locutores(as), se gritarem, desligo. Ou então viro as costas. Ou mudo, até apanhar locutor(a) ou repórter que não seja aos gritos… Olhem, por exemplo, como a Filomena Crespo, à hora da sesta. Ou outro Crespo (o Mário) na SIC Notícias. Há uns tantos e tantas, embora às vezes, sejam demasiado ansiosos para o meu gosto…. Mas lembrei-me destes dois que me parece servirem de exemplo. Não gritam. Dizem as palavras todas, e as sílabas, até ao finzinho com serenidade e sem afectação. São bons ‘dizedores’!
E relatores? Devo dizer, antes de mais nada, que não sou apaixonado pelo futebol. Mas, quando sei que vai haver desafio relatado por Paulo Garcia, ah, aí, não falho, se puder vou ouvir. Nem é tanto pelo futebol: é pelo Paulo Garcia! Primeiro, a voz… Ah a voz! Faltava-me falar da voz. Então e antes de mais, vamos à voz e o recado serve para todos os agentes do dizer.

A voz, a gente sabe, é um dom da natureza. E ninguém tem culpa de nascer com má voz. O Paulo Garcia tem esse dom. Mas não bastaria o dom, se ele não tivesse mais: o domínio competente da língua; a capacidade de a moldar pela boa dicção, de a ‘melodiar’ (aquilo que se diz, que se ‘locuta’, que se relata, para ser bem recebido, tem de ser construído em discurso melodioso:é a entoação adaptada ao momento do relato ou ao tipo do discurso, e o grito, sim o grito mas no momento próprio e só no moemnto próprio, no momento do clímax, que pode ser o golo ou não). Mas a gritaria constante, do princípio ao fim, como se tudo se passase em momento de clímax, isso não, seus gritões! E o Paulo Garcia ainda sabe mais coisas. Sabe, por exemplo intercalar no seu relato, aproveitando as pausas ou suspendendo um clímax que estava para ser, interpelando o Coroado ou outro comentador, no momento apropriado, com a pergunta certa, que tem, geralmente a resposta certa. É por isso que ouço quando posso o relato do Paulo Garcia. Mas não termino este parágrafo sem perguntar: Será que, no futebol, tem de ser tudo aos gritos, como se destinadores e destinatários estivessem todos drogados de futebol?!… A propósito, há muito que não me dou conta de um relato de Paulo Garcia! Por este andar, vou deixar de ouvir relatos! É tão chata a gritaria! São tão chatos os gritões!… Deixem um ignorante de futebol perguntar: onde está o Paulo Garcia?

Seria altura de dizer: locutores, condutores de programas, repórteres, relatores, comentadores, nada de gritões ou gritonas! Mas sim: voz, domínio da língua, dicção, serenidade, modulação do dizer…
Havíamos de falar também nos gestos, na gesticulação. Mas aqui e agora, diremos apenas: comedida, nada de palhaçada, nada de quem está na tribuna a debitar um discurso político, ou no púlpito a pregar um sermão. O que, além do que está dito, mais me chateia (deixem passar o plebeísmo, que também sou plebeu), no micro e na pantalha, é a gritaria ou a palhaçada gestual. E aquelas mãos e aqueles dedos não param!… Para terminar: gritos, gestos e dicção trapalhona, gritona ou choramingona (sim, porque também há quem pense que o dizer deve ser choramingado…) fora do micro! Fora da pantalha!

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