Considerações sobre a Ratio

Comecemos pelo princípio: ratio, rationis, nome substantivo, latino, do género feminino, étimo da nossa palavra ‘razão’. Entrou na linguagem filosófica, vinda já do latim clássico, com o significado, entre muitos outros,  de: conta, cálculo, faculdade, razão, raciocínio, ordem, relação, proporção. Em Roma e, a seguir, no Império, e na Cristandade, quando nas escolas se usava exclusivamente o latim. Da linguagem filosófica passou para a linguagem matemática e da matemática para a económica. Os economistas de língua portuguesa, que, já nos tempos modernos,  não sabiam (não sabem) latim, trouxeram-na, por via do inglês, para a linguagem económica dando-lhe a forma  ‘rácio’, e atribuindo-lhe o género masculino. Chamaram-lhe (chamam-lhe) ‘o rácio’. Vejam: the ratio tanto dava para o feminino como para o masculino, não é? Mas podemos verificar que o dicionário de inglês Michaelis Illustred Dictionary a regista assim:

ratio s. 1. razão f.; 2. proporção f.; 3. relação f.

Para os conceitos de ‘ratio’ e ‘cognatas’, os gregos tinham outras palavras como: logos (λoγoς) e cognatas. De entre elas, na passagem do grego para o latim, algumas mantiveram-se na linguagem filosófica, como por exemplo, o adjectivo lógico/lógica cuja forma feminina  deu nome à disciplina que nos ensina as regras do raciocínio (a Lógica dos silogismos, os tais das premissas), sem contarmos, por agora, as dezenas ou centenas de palavras que têm como último elemento de formação o adjectivo lógico, no masculino ou no feminino: psicológico, psicológica…

Mas parece caber aqui uma pergunta: por que razão logos (λoγoς), vocábulo grego que significa palavra, verbo (verbum) (e que, pelo menos desde Heráclito no séc. V a. C., já correspondia à ratio latina, na linguagem filosófica), terá cedido, em certa medida, ao uso de ratio? Aventa-se, não gratuitamente, uma razão: é que logos foi de certo modo sacralizada pelos primeiros pensadores cristãos, desde logo pelo autor do Evangelho de S. João, que começa assim: Εν αρχε ην o λoγoς […] кαι θεος ην o λοүος = In principio erat Verbum […] et Deus erat Verbum.

Mas voltemos à ‘ratio’. Foi certamente usada nas escolas romanas da antiguidade clássica. Mas foi nas escolas da escolástica, medievais e seguintes, que ela foi especialmente usada e abusada, no discurso argumentativo e de debate. Quando numa escola medieval se discutia… o sexo dos anjos, de um lado estariam os que ‘razoavam’ defendendo que eles, os anjos, eram meninos; do outro, os que, na tese contrária, defendiam que eram meninas. E de ambos os lados se terminaria, por uso regular, a explicação do respectivo argumento assim: Ratio est quia… (= a razão é porque…). Uma terceira tese se terá esboçado para defender que alguns não seriam meninos nem meninas… Ratio erat quia…

– Nulla ratio! – gritou o catedrático do alto da sua infalível e omnipotente sapiência, dando um valente murro na mesa. – Ratio est quia, digo eu,… Quando Deus criou o homem no Éden, fez um boneco de barro, bem másculo, e soprou-lhe uma alma de homem, bem homem. Depois, arrancando-lhe uma costela, onde talvez vislumbrasse resíduos féminos, fez dela a única mulher, bem feminina.. E tentando passar definitivamente uma esponja sobre a tese que se esboçara, ameaçou a assembleia académica com um anátema. E tudo, na Aula Magna, voltou ao sossego da ‘ratio’… E então, quanto tempo se perdeu, defendendo razões contrárias, absurdas, sem qualquer ‘razão’ decentemente aceitável…

Agora, vejam só o que, a propósito da luta dos professores, em crónica jornalística, se pode escrever:

“Esta trapalhada, que não chega a ser um argumento, é o caldo de cultura do conflito que opõe a classe (se se pode falar de uma oposição de classe) ao ministério. […] A nível do ensino básico, o ratio professor/estudante é de um para 11, abaixo da média da OCDE (16); e no secundário é o mesmo, também abaixo da média (13) – com a curiosidade de no privado haver um ratio superior.” (DN, 12/12/08, p. 9)

E o que é que tem a ver a coisa com este meu texto? Antes de mais, tem a ver porque não é “o ratio”, como no final do texto se usa e abusa do latinismo no masculino. E depois, porque a jornalista leva o absurdo do seu ‘pré-juízo’ ao ponto de querer convencer o leitor de que mais de 100.000 profissionais em manifestação, duas vezes em crescendo, não representam a classe. “Se se pode falar de uma oposição de classe”?!…   Então, digam lá vocês: de que se poderia falar?!…

Uma resposta

  1. […] damnatio (verbo damnare). Remete-se o deparante de acaso ou o adrede visitante para a postagem “Considerações sobre a Ratio”. E também a rubrica 98 de Tento na […]

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