Homónimos: o cisma / a cisma

A cisma é a recusa de sujeição ao Papa ou de comunhão com os membros da Igreja que lhe estão sujeitos. (DN 7/6/09, p. 14)

“Cisma (L. schisma < Gr. schisma), m. Separação religiosa, política ou literária; f. acto de cismar, preocupação constante; ideia, pensamento fixo; mania; devaneio” (Dos dicionários. Negrito nosso).

Por esta definição se vê que a palavra cisma serve para significar conceitos diferentes consoante o género – masculino ou feminino. ‘A cisma’, género feminino significa coisa bem diferente de ‘o cisma’. Anota-se, pois, o erro da jornalista, verificado na citação acima. Mas poderá alguém querer saber a razão da diferença de género. Sendo as duas acepções derivadas do mesmo étimo – grego via latim – e sendo a palavra grega um nome de género neutro terminado em ‘a’ (alfa), manteve o género (neutro) na sua passagem pelo latim. Ao chegar às novilatinas, o neutro grego e latino derivou, regra geral, para o masculino. Tudo bem: o cisma. E então, o feminino – a cisma? É claro que, sendo mais tardio, mais popular, o povo falante atribuiu-lhe o género feminino – a cisma – certamente por terminar em ‘a’…

Não virá a despropósito tecer aqui umas breves considerações de tipo sociolinguístico (ou histórico-linguístico). Se normalmente as palavras de género neutro que nos vieram do grego são, em português, masculinas – lema, problema, teorema, etc –, porque é que cisma, além do regular masculino, deu em feminino numa das duas acepções? Acho que posso aventar aqui uma hipótese provável, que terá a ver com o facto de que o Cisma, na história da Igreja, ou na História simplesmente, não se ficou, como as outras, pelo nível erudito: desceu ao nível popular; e de tal modo que, só de ouvi-la, a palavra cisma era geradora de horror, de pânico. Porquê? Porque o destino do ‘cismático’ era, naturalmente, toda a gente o sabia, a tortura, a fogueira, a morte atroz. Por isso a palavra se popularizou e sofreu a influência dessa popularização; palavras em ‘a’ são femininas: logo, a cisma. Daí também as duas acepções, cada uma com o seu género: o cisma, a cisma. E dá para cismar, não dá?!…

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