Palavras: manipulação / subversão

Remetem-se os deparantes de acaso ou adrede visitantes para a rubrica 271 de Tento na Língua! – 3, de que se transcrevem aqui, nesta postagem, os seguintes parágrafos, para melhor se compreender o sentido deste post:

“Espero me relevem a citação [na rubrica 271] um pouco longa, mas achei-a oportuna. ‘Convencer o interlocutor da justeza duma causa’ ou, por vezes, procurar convencê-lo de que é justa uma causa injusta!… Ou até mesmo mentir conscientemente, desavergonhadamente, com uma capa de discurso aparentemente perfeito, mesmo belo (quanto mais belo mais sedutor), ou então lisonjeiro (quanto mais lisonjeiro mais hipnotizante), contrariando o pensamento de quem o usa!… Convencer o interlocutor, não da justeza da causa, mas encobrindo, escondendo, a “injusteza” e a injustiça da causa, no interesse objectivado do enunciante ou de seus compinchas!…

E a que propósito vem toda esta lengalenga, ainda por cima com uns laivos de erudição? – poderá perguntar o impaciente leitor. A propósito, é claro, do discurso político de alguns, demagógico, populista, quantas vezes ajudado pela linguagem gestual da beijoca babujante ao Zé Povinho (e à Zefa Povinha…) que se deixa iludir, digamos o arcaísmo, se deixa alienar… Estão vocês a ver: a retórica, inventada pelos súbditos para iludir o tirano [Cf. rubrica 271], foi sendo apropriada pelas tiranias para iludir os súbditos…”

Vamos então ao nosso post. A gente vê/ouve/lê e, simplesmente, a gente pasma !… Eis três exemplos:

1. Falar ou agir? – Sócrates: “PS tem de falar de forma a chegar mais perto dos cidadãos” “Sócrates ensaia nova imagem de líder humilde” (DN 17/6/09, p. 1) . Então o que é preciso mesmo, não é mudar o rumo da acção: é sim mudar a fala, a imagem, para chegar mais perto dos cidadãos, ou seja para enganar, mais e melhor, o Zé Povinho!…

2. Sondagens, que sondagens? – Presidente da República: “Cavaco Silva, antes de receber os partidos com assento parlamentar, afirma ter ouvido dizer que a maioria do povo teria manifestado em sondagens não especificadas a sua preferência em fazer coincidir ambos os escrutínios num só dia” (DN 24/6/09, Editorial). Vejam bem até Sua Excelência fala em sondagens que apenas imagina, para ver se leva o Zé a aderir à sua opinião!… Com a ideia de S. Exa até podíamos concordar; com o método de a impor, não!

3. Otium / Negotium – Zeinal Bava: “Quanto à entrada da PT no universo da Media Capital, Zeinal Bava recusou sempre falar de um ‘negócio’, até porque, como explicou, não há qualquer acordo, apenas contactos e conversações. […] Todos os negócios têm uma oportunidade. Não falo de negócios que são do foro confidencial” (DN 26/6/09, p. 3). Lembrando o conceito da dicotomia ócio / negócio (Otium et negotiumnec-otium – dos Romanos). Otium: ócio, fruto das horas vagas, versos, trabalho artístico; negotium: o contrário de ócio; ocupação; negócios públicos; negócios comerciais, etc. Mas atenhamo-nos, por agora, ao negócio do Sr. Zeinal. Então, senhores, negócio não é tudo o que tem a ver com um contrato, desde que nasce a ideia, mas sobretudo desde que se comunica, mesmo na fase confidencial, passando pelo acordo, o trato (dos tratantes) e finalmente o contrato? Ou negócio será só e apenas o contrato? Ou, muito menos ainda, só a escritura notarial?

Deuses! Ao que chega a manipulação e a subversão das palavras, querendo fazer de nós anjinhos, criancinhas, palerminhas!

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