Heresia e blasfémia

Heresia (L. haeresis >Gr.haeresis) f. Doutrina contrária aos dogmas da Igreja; contra-senso; acto ou palavra ofensiva da religião.

Blasfémia ( L.>Gr. Blaspemia) Palavras ultrajantes da divindade ou da religião; ultraje dirigido contra pessoa ou coisa respeitável; dito absurdo.

(Dos dicionários)

Começo por dizer que geralmente leio e aprecio as crónicas de João Miguel Tavares. Mas esta As afirmações religiosas do ateu José Saramago (DN, 27/OUT/2009, p. 9) mais me parece uma série de excertos da homilia que o autor terá ouvido no último domingo. Que grande confusão, meu Deus! Confusão semântica, confusão teológica, confusão filosófica. Então digam-me: um ateu, por ser ateu, não pode falar de ética? Não pode analisar um texto do ponto de vista da ética? Pois! Sócrates (nada de confusões aqui!), quando estava a virar a juventude grega contra os deuses do Olimpo, que pelos vistos estavam acima de toda a ética humana, foi obrigado a tomar  a cicuta letal. Ele, que “só sabia que nada sabia”! Vejam:

“… o escritor português defendeu ‘o direito à heresia’. Carreira das Neves respondeu, e muito bem, que Saramago não pode ser herético se não acredita em Deus. Tivesse o nosso Prémio Nobel da Literatura mais cuidado com as palavras e perceberia que aquilo que está a defender é, isso sim, o direito à blasfémia.”

E mais adiante:

“… uma série de gestos muito atinados mas que passam ao lado do essencial: um ateu pode perfeitamente dizer que a Bíblia é um manual de má literatura; não pode é dizer que é um manual de maus costumes”.

E porque não? E agora esta barbaridade:

“Só quem acredita que a Bíblia tem alguma relação com a palavra de Deus está habilitado para sobre ela fazer considerações éticas”.

Esta, é de pasmar! Ainda para mais saída da pena de um escriba jornalista! Pena que eu tantas vezes tenho visto passar com o bico sobre a ética de figuras políticas e não só! Poderá um jornalista fazê-lo: ler um texto e analisá-lo do ponto de vista ético? E porque não um escritor? E porque não um ateu?

E agora vejam só mais esta:

“… A maior parte dos cristãos dirá que a Bíblia é um Manual de bons costumes. Mas seja para dizer que os costumes são bons, seja para dizer que os costumes são maus, é preciso acreditar no ‘poder ético’ daquele livro, ou seja, na transformação da palavra em acção. Ora, um ateu necessariamente não acredita nessa transformação, e por isso tem de olhar para a Bíblia como olha para outro livro qualquer: estética e nada mais.”

Nada mais porquê? Quer isto dizer que um crente terá de deixar de se preocupar com a ética quando deixar de crer em Deus? Não haverá aqui uma grande confusão de ética com teologia moral?

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: