Jogo da Língua polémico

Fiquei com pena daquele concorrente ao Jogo da Língua (Antena 1, 14:30 h) que ligava da linda terra das alheiras, Mirandela. Foi-lhe posta a questão assim: “Qual é o plural de decreto-lei?” E ele disse logo: “Decretos-leis”. Mas em seguida o problema foi-lhe proposto assim: “Tem de escolher uma destas duas: decretos-leis ou decretos-lei?” E o homem, muito baralhado, pensou pensou e disse: “bom, decretos-lei”… Veio a senhora doutora e explicou: decretos-leis, porque não sei quê não sei quantos, porque era assim mesmo… E o homenzinho ficou sem o livro. E eu sou capaz de dizer: em um “jogo da língua” assim, questões polémicas não se devem pôr! Polémica, esta? Sim.

Embora o tal Dicionário da Academia diga que o plural de decreto-lei é decretos-leis, e mais nada, há quem, com muita autoridade, diga que esse nome substantivo composto pode ter como plural: decretos-lei ou decretos-leis ou vice-versa (Cf. Dicionário Aurélio e Dicionário Houaiss). Mas a polémica não fica por aqui. A Nova  Gramática do Português Contemporâneo, de  Celso Cunha e Lindley Cintra (Sá da Costa, 3.ª ed., p. 188) diz: “c) também só o primeiro toma a forma de plural quando o segundo termo da composição é um substantivo que funciona como determinante específico: navios-escola…”, opinião seguida por gramáticas adoptadas nas escolas. Ora se decreto é um diploma com força de lei emanado do Governo, e lei é um diploma legislativo emanado do órgão propriamente legislador, no composto decreto-lei, o segundo elemento bem pode(deve) ser considerado um determinante específico. E ainda, conforme o Prontuário Ortográfico e guia da língua portuguesa, Notícias, 47ª edição, p. 56:

“- Nos compostos formados por dois nomes (normalmente ligados por hífen) em que o segundo elemento tem uma função adjectival só o primeiro elemento vai para o plural: escolas-modelo, expressões-chave, projectos-piloto, etc.”

Neste “etc.” poderíamos acrescentar, entre outros, os nossos “decretos-lei”.

Mas o Jogo da Língua não acaba aqui. Há dois dias, a pergunta era: “deve-se escrever/dizer precaridade ou precariedade?” A senhora doutora explicou: precariedade, porque é assim nos nomes deste tipo derivados de adjectivos terminados em –ário. Está bem. Mas eu acho que a senhora doutora podia muito bem alargar a explicação, porque esta não abrange substantivos do mesmo tipo, como ansiedade (de ânsia), piedade (de pio), sobriedade (de sóbrio), sociedade (de sócio), seriedade (de sério); e decerto alguns outros que não derivam de adjectivos terminados em –ário, mas simplesmente em –io (ou –ia). Há, ainda, o caso de saciedade que nos vem do latino satietate, derivado não de adjectivo ou substantivo, mas sim de advérbio – satius – comparativo de superioridade de satis. Saciedade é, pois, o estado de qualquer coisa que é “mais que bastante”, ou seja, o estado de saturação.

Até porque, de minha experiência, não posso considerar o Dicionário da Academia o “papa” dos dicionários da língua portuguesa, muito ao contrário.

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