“Se eu puser: com ‘s’ ou com ‘z’?”

Foi o que alguém me perguntou há poucos dias.

Com ‘s’ sem dúvida. E a razão é, também sem dúvida, etimológica. Assim o decidiram os reformadores da reforma ortográfica de 1945, que é, ainda, a que vigora, felizmente. Oxalá a porta não se abra ao tal “acordo ortográfico”, que ronda por aí tão desacordado!

E então, com ‘s’ porquê?

Ora vamos lá ver. Na conjugação verbal, há uns tantos tempos verbais que derivam do chamado tema do perfeito. E esse jeito já nos vem do latim. São eles: futuro imperfeito do conjuntivo – se eu puser; pret. imperfeito do conjuntivo – se eu pusesse; pret. mais-que-perfeito do indicativo – eu pusera. O negrito realça o radical (o tema) do perfeito (pretérito perfeito do indicativo) – pus. E esta regra é claramente válida para todos os verbos em geral, embora, para alguns verbos, como é o caso de pôr e outros, se torne mais clara a achega desta teoria para ser correcta a nossa ortografia. E o que tem isto a ver com a etimologia? Tem muito, como vamos verificar. Veja-se a forma verbal latina da qual deriva a correspondente portuguesa do verbo pôr:

Pretérito perfeito (do pretérito perfeito latino): posui > pus, posuisti > puseste, posuit > pôs, posuimus > pusemos, posuistis > pusestes, posuerunt > puseram.

Futuro imperfeito do conjuntivo ( do futuro perfeito latino): posuero > puser, posueris > puseres, posuerit > puser, posuerimus > pusermos, posueritis > puserdes, posuerint > puserem.

Imperfeito do conjuntivo (do m.-que-perf. do conjuntivo latino): se eu pusesse < posuissem, se tu pusesses < posuisses, se ele pusesse < posuisset, se nós puséssemos < posuissemus, se vós pusésseis < posuissetis, se eles pusessem < posuissent.

Mais-que-perfeito simples (do m.-que-perf. do ind. latino): posueram > eu pusera, posueras > tu puseras, posuerat > ele pusera, posueramus > puséramos, posueratis > puséreis, posuerant > puseram.

E, como se pode ver, lá está o ‘s’ do tema em todas as pessoas, no latino e no português.

Agora em outros verbos (só com a primeira pessoa): eu quis < quaesii, se eu quiser < quaesiero, eu quisera < quaesieram; eu fiz < feci (o ‘ci’ latino deu ‘z’), se eu fizer < fecero; se eu fizesse < fecissem; eu fizera < feceram. Do verbo dizer. O perfeito português  é disse que deriva do latino dixi, então: se eu disser < dixero;; se eu dissesse < dixissem; eu dissera < dixeram.

E, já agora, uma curiosidade que põe uma questão fonético-etimológica. O verbo trazer cujo étimo latino é trahere: traxi < trouxe; traxero < trouxer;  traxissem < trouxessetraxeram < trouxera. Só para dar corda à curiosidade, veja–se o processo evolutivo de ‘trouxe’: traxi>trauxi>trouxe (Ditongação e a vulgar substituição do ditongo ‘au’ pelo ditongo ‘ou’).

Mas a tal questão é esta: se dixi deu disse, porque é que traxi, o mesmo fonema, no primeiro escreve-se com dois ‘ss´ e no segundo com ‘x’? Pergunte-se aos eruditos que assim convencionaram a ortografia.

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Uma resposta

  1. Parabéns António Marques!!
    Excelente texto. Explicar o porque, é o que falta a muitos educadores.

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