Corrupção, fumarada e enxota-fumos

1.  Um charco lexical: nomes substantivos, adjectivos, verbos e expressões, em  campo lexical ( todos a ver com a raiz rup- ) ou campo semântico (a ver com a ideia de quebrar, violar, infringir, esfrangalhar, estilhaçar):

Corrupção < corruptio-onis

Corromper < corrumpere, corrupi, corruptum (Con-+ rumpere*, diz o Torrinha )

Corrupto < Corruptus-a-um

Corrompido – adjectivo verbal, particípio passado do verbo (vernáculo) corromper

Romper < *rumpere, rupi, ruptum (rup- com infixo nasal, diz o Torrinha)= quebrar com força; romper (muitas vezes, com a ideia acessória de arrancar, rebentar);  romper, violar, infringir, anular

Rompido ( vernáculo particípio de romper)

Roto (ruptu-) – adjectivo verbal (irregular, erudito) de romper. A título de curiosidade, aqui se transcreve, do Dic.Etimológico da Língua Portuguesa, Pedro Machado, da entrada Roto: “Adj. Do lat. ruptu-, p. p. do v. rumpere (vj. Romper). […] outro sentido * no séc. XV: nom pode fazer testamento nehuũ; e se o faz, nehuã cousa nom val; e ainda que ouvesse feito alguũ ante da dita condapnaçom em qualquer tempo, tanto que he condapnado, logo he de todo roto, e perde toda a virtude…” Ord., V, título 55, início, p. 201.”

“Roto. Corrupto, nefando, impudico: ‘Eu certo não duvido que o Piloto, / o Mestre, o Marinheiro, o Capitão, / Usem do costumado vício roto / Com todas as que em seu poder vão’. Camões, Obras, 1, p. 467” (G. E. Port. e Bras. entrada ROTO)

Suborno – acto ou efeito de subornar; peita; aliciamento; corrupção. (Deriv. regr. de

Subornar) – induzir ou aliciar para mau fim; corromper com promessas ou por meios venais (Do lat. subornare: equipar; preparar secretamente; corromper (falsum subornare testem = subornar uma falsa testemunha [ Já naquele tempo as havia!…] ).

Luvas: suborno.

Por baixo da mesa: sub-repticiamente, às escondidas. Mas também se usa o  antónimo: às escâncaras .

Cunha:  “Peça de ferro ou madeira, com duas faces em ângulo bastante agudo, que serve para rachar lenha, fender pedras, etc.; […] (sentido figurado): recomendação; pedido, empenho […] Sua excelência a Cunha (plebeísmo: Cuinha). O grande agente de emprego e de ‘encomendas’: para amigos, compadres ou sócios e parceiros. / Tráfico de influências: Se podias dar um jeitinho pra isto e pràquilo. – Ó amigo, é já! – Obrigadinho, pá. – Manda sempre, pá!

Nepotismo: “(HISTÓRIA) posição de relevo, no campo honorífico ou administrativo, dada por alguns papas a pessoas da própria família” (Porto Editora). Como estes dicionários são discretos, de humildade cristã e reverente!: com ‘pessoas da própria família’, querem dizer ‘sobrinhos’ para não lhes chamarem ‘filhos ‘ que é o que eram. Veja-se o Torrinha: “nepos, nepotis – neto, sobrinho, descendente […]; dissipador, pródigo, perdulário, devasso”. Dos papas passou ao comum dos mortais. Compadrio e amiguismo situam-se na mesma área semântica

2. E porquê todo este  charco lexical? Ainda perguntas porquê ? Então, não dá ele a ideia, o retrato deste país corrupto em que estamos metidos? Desta neblina, deste nevoeiro que envolve o país – Estado, empresariado, muitos cidadãos que até elegem gente comprovadamente corrupta e condenada? E todo esse nevoeiro pantanal, não está ele a pontos de querer tapar os olhos do país, do Zé Povinho, dos desempregados, dos pobres, dos remediados, ou mesmo alguns ricos sérios? Estará o País condenado a viver no nevoeiro do pântano, ou no pântano enterrado até às orelhas, cada vez mais mísero e mesquinho? Governado por um governo que está, há uns anos, constantemente a ser beliscado pela suspeição, pela descredibilização? Teremos nós de nos encher de resignação cristã, neste negrume, neste cheirume de gato fedorento em que nos movemos? Tudo à nossa volta exala fedor! Tudo fede!

3. E porque é que tudo isto faz lembrar o engenheiro Cravinho? Ah! O engenheiro Cravinho lá está em Londres, bem colocado na vida. E bem calado. Ele lá sabia/sabe qualquer coisa… Ou cheira-lhe… E então? E então, nada! Deixem-no em paz e vivamos aqui mergulhados no nevoeiro e na lama. Pobre País!

”Meu Portugal, meu berço de inocência!” (Tomás Ribeiro).

4.  A fumarada e os enxota-fumos

Poema de Zé-Povinho

Onde há fumo há fogo lá diz o povo.
É o clamor do povo em toda a parte onde se fala!
Os enxota-fumos
Bem tentam enxotar os fumos.
Mas quanto mais o fumo enxotam mais o fumo se adensa.
E o Zé-Povinho pasma
No meio da fumarada
(escondendo o quê em chama?)
O Zé-Povinho pensa.
O Zé-Povinho clama
Justiça que julga  não esconde:
Justiça, adonde estás?
Adonde?!

Pombal, 11/Nov//2009, Dia de S. Martinho
Zé-Povinho

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