“O nazismo de hoje”

[…] Lembro isto para celebrar o grande discurso de Obama ao receber o Nobel da Paz. Esse não está desarmado perante o nazismo de hoje: o radicalismo islâmico” (DN 12/12/09, Ferreira Fernandes, última página).

Aprecio muito o Jornalista Ferreira Fernandes. Várias razões: o domínio da língua, moldada pelo seu estilo inconfundível; a informação, que já tem ou sabe procurar para enriquecer, oportunamente, cada um das suas produções jornalísticas. E se procuro não perder, diariamente, os seus textos, as suas crónicas, a que nunca perco mesmo é a última coluna da última página – “Um ponto é tudo” – que, às vezes me serve de começo da leitura do jornal. Do “Um ponto é tudo” de hoje [12/12/09] – “O grande e justo Obama” – foi tirada a citação que abre este meu comentário que começa com o elogio sincero que aqui lhe exaro, deixando-me à vontade para o ‘protesto’ com que o terminarei.

Com que então, senhor Ferreira Fernandes, “o nazismo de hoje” (dito assim com a conotação metonímica que lhe é conferida pelo uso do artigo definido, assim superlativando relativamente a expressão) é #o radicalismo islâmico”! E é na metonímia que está a razão do meu protesto. Porque o senhor não diz ‘um dos nazismos de hoje’ ou ‘o segundo nazismo de hoje’, ou, vá lá, mesmo que dissesse ‘o pior dos nazismos de hoje’: diz “o nazismo de hoje”, esquecendo, calando, silenciando completamente os outros nazismos – o nazismo gólfico, o nazismo guantanâmico, o nazismo israelita ali ao lado do da sua crónica, e, decerto, o não menos pior nazismo de hoje. Às vezes até parece que conseguem competir com o nazismo de que historicamente foram vítimas.

Mas há outra coisa que, na sua crónica, eu não posso, nem minimamente, aceitar, e que está também na citação: “celebrar o grande discurso de Obama ao receber o Nobel da Paz”. Ou seja, celebrar o Nobel da Paz com um discurso apologético da Guerra, da guerra invasiva, da guerra de ocupação gratuita e mentirosa – a Guerra do Iraque, a Guerra do Afeganistão, dos Bush, da guerra imposta  mesmo sem declaração, e o pensamento de outras semelhantes e possíveis guerras  na mesma linha – celebrar a Paz com a justificação e incentivo à guerra injusta é, tratando-se de Obama,  a suprema perversão do nosso sonho obâmico.

Tão politicamente correcto, no âmbito global, este grande jornalista!

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