A palinódia de Vasco Graça Moura

Foi preciso o País bater no mais fundo do charco (ou da “choldra”) para voltarmos a ter nos jornais peças do mais lídimo, autêntico e infelizmente mais que merecido sarcasmo político. Refiro-me à crónica de Vasco Graça Moura (VGM) no DN “Palinódia” (29/12/09, p.54). Não deixem de ler.

Não será este VGM digno de um Junqueiro da Pátria, de que o próprio Junqueiro diz: “Escrever a Pátria e escrever o Prometeu Libertado […] hesitei muito. Por fim decidi-me pela Pátria, que é a visão do momento histórico português sub specie aeternitatis” Vejam vocês bem, isto era no século XIX ? Ai se o velho Junqueiro viesse cá hoje! E o Eça! E todos aqueles satíricos oitocentistas! Desse Junqueiro que “teve o aplauso e o louvor unânime da crítica do seu tempo, podendo-se dizer que nenhum da sua época foi tão festejado e elogiado”; “de quem Sampaio Bruno disse que era o maior poeta da contemporaneidade”; “Teixeira de Pascoaes, segundo refere Raul Brandão nas Memórias, afirma que nas sátiras foi maior que Juvenal. Nesta ordem de ideias tudo se disse e escreveu sendo comum a opinião, entre homens de letras, que ele era o primeiro poeta latino depois de Vítor Hugo. E só a intervenção de António Sérgio [tão politicamente correcta, esse António Sérgio!] veio pôr cobro à fama do genial poeta e atirar para o limbo do olvido tão alto vate.  (Cf. G. E. P. e B.).

Para quem não saiba ou não queira dar-se ao trabalho de consultar as etimologias, aqui vai:

Palinódia s.f. 1 poema em que o autor se retracta do que disse noutro poema anterior; 2 [fig.] retractação; 3 [fig.] mudança de crença política (Do gr. palinodia, “canto com outra música”, pelo lat. palinodia-, “palinódia”) (Dic. Porto Editora, 2003) Acrescenta-se: Palinódia (Do gr. palin, adv: para trás, contrariamente, de novo + odé, canto, pelo lat. palinodia, “palinódia”).

O que eu não entendo bem é que este VGM, que eu tanto admiro (até pela antiapologética do Acordo/Desacordo), se tenha mostrado tão acérrimo defensor de uma líder de um partido e mesmo desse partido que, toda a gente o sabe, tanto ajudou este País a dar com o fundo no charco, ou na “choldra”, não já do Afonso da Maia,  ou no Finis Patriae de Junqueiro, mas nesta nossa choldra de que não conseguiu sair, antes, pelo contrário, mais incrivelmente ‘choldrado’ está (estamos)!

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