“Logo mais” [“tarde mais”]

“Há poucos dias, na TSF, uma dama dizia muito espevitada que ‘logo mais’ ia acontecer não sei o quê… Não foi a primeira vez que ouvi essa aberração revoltante.” (DN 27/JAN/2010, artigo de Vasco Graça Moura, p. 70)

Na minha leitura do DN, se há textos que não deixo escapar são os de Vasco Graça Moura (VGM), que, devo dizer antes de mais nada, tenho em elevada conta, como escritor, como poeta, como tradutor literário. E neste processo do Acordo/Desacordo, que leva já uns largos anos, considero VGM o maior e melhor defensor da Língua Portuguesa, pelo menos no que respeita ao espaço sincrónico de Portugal. Isto, mesmo que ele continue a afirmar e a reiterar que não é linguista. Deixe-me dizer-lhe, Companheiro Maior da luta contra o Acordo, que não é linguista só quem possa ostentar um grande canudo universitário na matéria. Quantos bons linguistas se revelaram tais, sendo a sua outra área disciplinar do saber. Seria caso para perguntarmos se é o seu canudo de Direito que lhe dá o direito e o proveito de se apresentar como bom escritor, bom poeta, bom tradutor. Mesmo tendo em conta o que tem escrito sobre a Língua e o Acordo, acompanhado de grandes linguistas que estão com ele e o apoiam, já lhe dão de sobejo esse direito. Fique bem claro que é este o meu conceito a respeito de VGM. E nem o ‘desacordo’ que em seguida vou referir de jeito nenhum minimiza o encómio que aqui lhe deixo.

É o caso do “logo mais” constante do primeiro parágrafo do seu artigo “A paisagem, entre minhocas e King-Kong”: “E não foi a primeira vez que ouviu essa aberração revoltante”. Refere-se portanto à expressão “logo mais”. Fiquei bastante surpreendido com o primeiro parágrafo referido.

Então não será de uso assaz corrente, “logo mais”?

Logo(2), adv. ( do lat. loco, sem demora alguma, sem detença, imediatamente || Dentro em pouco, daqui a espaço de tempo maior ou menor […] || Mais logo ou logo mais, passado algum tempo, um tanto ou quanto mais tarde […]” (Dicionário da Língua Portuguesa, 7 volumes, Sociedade de Língua Portuguesa, Coord. De José Pedro Machado, 1964)

Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira encontramos o seguinte:

Logo(2) adv. […] Mais logo ou logo mais, passado algum tempo, um tanto ou quanto mais tarde: logo mais lhe dou a resposta […].

Além da enciclopédia e  do dicionário antes citados, a locução adverbial logo mais pode ver-se ainda, com o mesmo significado, nos seguintes dicionários que tenho aqui à mão: Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa; Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa; Dicionário Aurélio Século XXI.

Logo, com a devida vénia ao meu admirado VGM, penso que  a expressão ouvida na TSF (e não me surpreende que não tenha sido a primeira vez) não está incorrecta. Com fundamento na minha experiência de falante estudioso e ensinante da língua, e apoiado nos dicionários citados, não acho que o uso da locução adverbial “logo mais” ou “mais logo”  seja assim aberração tão revoltante ou simplesmente revoltante…

E, já agora, como tudo isto deriva de uma tal “dama espevitada” da TSF, achei que  devia acrescentar aqui só mais uma notinha. É que eu também embirro solenemente com locutoras  de rádio “espevitadas”. E então, gritonas, não aguento mesmo.

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: