A propósito de um nome para uma Escola

Acabo de ler, em O Correio de Pombal (OCP) de 25 de Março, o equilibrado artigo de Alfredo Faustino sobre o tema em debate (em polémica?). Como munícipe e, já agora, como professor do ensino secundário, queria também  meter a minha colherada.

De todos os nomes mencionados no referido artigo, e, pelo que se diz por aí, nos cafés ou alhures, sem desconsideração para nenhum deles, eu acho que, além do Marquês e de Salgueiro Maia, será difícil encontrar outras personalidades, de importância mais ou menos histórica, que merecessem de algum modo a honra de darem o seu nome à Escola Secundária de Pombal. Quanto ao Marquês, o mais ilustre de todos, quer se goste dele ou não, até pela sua acção político-educativa, pois é sabido que  uma das mais importantes reformas da nossa História da Educação a ele se deve. Mas é claro que ficaria excluído, penso eu, pela simples razão de que já deu nome a uma escola – a Secundária do Marquês, em Lisboa, onde este modesto escrevente foi professor e de lá se aposentou.  Salgueiro Maia, pela razão que todos conhecemos, seria sem qualquer dúvida um nome para que a escola a quem ele o desse se sentisse bem honrada.  E, em boa verdade, Pombal só teria de se orgulhar ao promovê-lo – daquele “cantinho a ver passar o comboio”… – para a escola: Escola Secundária Salgueiro Maia.

Há outros nomes que não estariam fora de merecer, com mais ou menos razão, essa honra.  Mas, entre os que menos me parecem merecê-la, estará decerto, o tal Beato António… Beato no sentido canónico ou simplesmente ‘beatificado’ pelo povo crédulo que um dia cantou loas ao ‘milagreiro confessor’. Mas, ‘beato’ também, decerto, no sentido mais ‘beateiro’ da palavra… Patrono de uma escola por ter sido conselheiro (talvez confessor) de um pateta de um rei que nos calhou e que só é célebre por ter levado a Pátria ao maior desastre da sua História, sem dúvida aconselhado e abençoado por ele,  de quem, como se sabe, o rei guerreiro da guerra santa se foi despedir a Xabregas, antes de partir para a trágica Quibir?! Sabemos nós que reis como esse, louco e ‘beato’, governavam o Reino pelas directrizes que ouviam através das grades do confessionário…

Quereriam vocês, por acaso,  dar a uma escola, à nossa Escola Secundária, o nome desse rei? Ele que nem terá percebido o que ouviu viva voce da boca do Épico e se pode  entender como a mais triste sátira ao rei e à Pátria, mas também a trágica profecia da nossa fatídica desgraça, ainda hoje bem actual:

“ […] venho / Cantar a gente surda e endurecida. / O favor com que mais se acende o engenho / Não no dá a Pátria, não, que está metida / No gosto da cobiça e na rudeza / D’ ũa austera, apagada e vil tristeza” (Os Lus., X, 145).

Ou, por extensão, o nome do religioso conselheiro dele, e assim chapiscando a Escola do mórbido sebastianismo que tão obstinadamente se apeganhenta à nossa pele colectiva?!

Eu, por mim, estou com o meu Amigo articulista, a quem peço me releve usar aqui transcrições dos seus últimos parágrafos:

“… isto, se for mesmo necessário escolher um nome para a Escola Secundária de Pombal! É que também alinho na corrente de opinião de que a Escola Secundária está muito bem assim e se recomenda. […] Sou dos que não vê vantagem na mudança do nome”

“Ou haverá mesmo, e a escolha de um novo nome não seja apenas uma questão de moda?!”

Também digo: se não querem o Salgueiro, deixem a Escola baptizada como está e pronto.

(Publicado em O Correio de Pombal, 1/4/2010)

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