Uma ILC contra o Acordo Ortográfico

Da minha querida amiga e colega Carmo Vieira, dos meus tempos da Marquês, “Entre a Ajuda e Belém”,  recebi a notícia de que está em marcha uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) contra o famigerado (e já de má memória, claro) Acordo Ortográfico. E, antes de prosseguir: “Entre a Ajuda e Belém” é um verso do Hino da Marquês que um dia este modesto escrevente se deu à aventura de compor (letra e música) e que foi cantado na festa da “Consagração dos Marqueses” e numa recepção ao então Ministro Roberto Carneiro que me parece ter torcido o nariz, sobretudo ao refrão:
“Senhor Marquês / vem ou não vem outra vez? / Senhor Ministro, / venha cá baixo ver isto!”. Ainda um dia hei-de publicar esse hino, vão ver. Já agora, só a primeira estrofe: “Nós somos a Escola do Marquês / Entre a Ajuda e Belém. / Marqueses, Marquesas quem nos fez / Ai se calhar não fez bem”.
Adiante.

De Carmo Vieira, já conhecida de muita gente pela sua competência como docente de Português e pela sua militância na defesa da nossa Língua e do ensino da mesma, li o  importante texto que ela publicou, como convidada, no blogue De Rerum Natura, do Professor Doutor Carlos Fiolhais, intitulado SOBRE O ACORDO ORTOGRÁFICO. Daqui lhes digo: não deixem de ler. De lá me permito transcrever o último parágrafo:

“João Pedro Graça, tradutor, não resignado com a situação, lançou a ideia, e nela persistiu, de concretizar uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC), com força de projecto de lei, no intuito de pedir a suspensão da resolução da Assembleia da República nº 35/2008 relativa à aprovação do AO. E porque para a Assembleia da República aceitar discutir a ILC são necessárias 35.000 assinaturas, fica o apelo a todos os que se opõem ao Acordo Ortográfico que consultem o endereço electrónico http://ilcao.cedilha.net , onde poderão encontrar o texto da Iniciativa Legislativa, bem como documentação relativa ao modo de assinar e de recolher assinaturas.”

Tanto se tem dito e escrito contra o Acordo Ortográfico, este AO, por tanta gente! Simples falantes, professores da língua e de outras disciplinas, muitos de alto gabarito linguístico. Pelo que oiço – na rua, nos cafés, em toda a parte onde me é possível ouvir – se se fizesse um referendo, o AO ficaria estrondosamente derrotado. E porque não se faz? Não se fará referendo, mas pode fazer-se uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC). É para isso que aqui se lança um veemente apelo a todos os falantes de Portugal, em geral, e, mais localmente, de  Pombal e arredores, que estejam contra o Acordo: cliquem no link e acedam à página da iniciativa. A assinatura tem de ser em papel, com o número do BI/CC e do Cartão de Eleitor, indicando freguesia e concelho. Vou deixar aqui no Correio de Pombal, Escolas e outros locais públicos, os impressos para  o efeito (se for preciso podem ser fotocopiados). Atenção: não alterar os impressos nem torná-los de qualquer modo impróprios para que possam ser entregues impecáveis na Assembleia da República, pelo menos 35.000 assinaturas para que a ILC possa lá ser aceite como projecto de lei.

Caros Concidadãos de Pombal, vamos a isto! Estão a ver? Também nós podemos de certo modo exercer o poder legislativo. Se for aprovada a ILC, o Acordo (neocolonialismo ao contrário?) ficará suspenso, que é o que verdadeiramente merecem a nossa Língua e os seus falantes. Um Acordo destes, não! Num texto publicado no Correio de Pombal (edição de 25 de Março), “A propósito de um nome para a Escola”, falei aqui do desastre de Alcácer-Quibir, a que o louco D. Sebastião conduziu a Pátria. Se não conseguirmos suspendê-lo, este Acordo Ortográfico será uma espécie de Alcácer-Quibir da Língua!

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7 thoughts on “Uma ILC contra o Acordo Ortográfico

  1. O problema é que até todas as pessoas contra o referido AO realmente assinarem o impresso e o enviarem vai um longo caminho, não é?
    E sendo a ILC submetida, será que corre ainda o risco de não ser aprovada? Se assim fôr, rica democracia…

  2. Pequeno poema em desacordo com o acordo

    No passado minhas ideias eram mais acentuadas
    Já não são agudas minhas heroicas empreitadas

    As pessoas não mais leem de chapéu
    Mas ainda se veem os sinais no céu

    As arguições de outrora eram mais tônicas
    Agora as plateias emudecem, ficam afônicas

    A ausência de circunflexo me causa enjoo
    A asa foi arrancada e cortada em pleno voo

    Eu perdi o traçado da autoestrada
    Mas ainda há risco no peixe-espada

    Não há quem não trema em consequência
    A língua camoniana nunca foi exata ciência

    A paranoia me penetra pelos pelos
    A escrita carece de frequentes zelos

    A escola para para que se averigue e se ajuste
    A regra é clara, e que a patuleia não se assuste

    1. “A língua camoniana nunca foi exata ciência”
      ( Do seu Comentário)

      A LÍNGUA DE CAMÕES
      (Soneto em alexandrino)

      “A língua de Camões nunca foi ciência exacta”,
      Como exacta não foi a língua de Ferreira,
      Nem tão pouco a de Lobo ou do grande Vieira:
      Tudo é bem natural se de língua se trata.

      Mas, língua natural, fizeram-na de nata
      Tais falantes de gema, e deram-lhe a maneira
      Erudita e capaz de ser a verdadeira
      De sábios ferramenta em ciência compacta.

      O Garrett, o Camilo, o Machado e o Eça,
      Pessoa e Drumond, Sofia e Veloso,
      E outros tantos mais que, desde as fundações,

      Afeiçoaram assim esta língua promessa,
      Cada um com seu uso e seu jeito formoso,
      Nossa língua roçando a Língua de Camões.*

      * Verso adaptado de Caetano Veloso

      Pombal, 16/07/2010
      António Marques

  3. O problema causado por este (de)acordo reside essencialmente no lado brasileiro. Tanto quanto sei Angolanos,Moçambicanos,Guineenses e todos os demais falantes preferem o nosso (original) modo de falar.
    No Brasil é outra história que não é detectável em nehuma das novelas transmitidas nas nossas TVs.
    Ninguém em Portugal faz a mínima ideia de como a lingua portuguêsa é (mal) tratada no território brasileiro.
    Não me refiro ao analfabetismo, que é considerável, sem dúvida, mas até os mais letrados estão já tão (mal) influenciados pela língua Americana e até Espanhol que eles criaram uma outra língua.
    A minha sugestão é que os Brasileiros continuem com o modo de falar e (mal) escrever deles e nós com os restantes falantes com o nosso. Com uma condição “sine qua non”…a língua deles passaria a denominar-se BRASILEIRO

    1. Senhor Joaquim, nosso “portugues” é maltratado devidos aos “bons” professores que tivemos assim como outros fatores históricos e sócio económicos …..
      Não entre em guerrilhas culturais…

    2. (nehuma?portuguêsa?)
      Até onde sabes os africanos preferem a ortografia de Portugal? Lamento mas sabes muito pouco. Na verdade os PALOP não tem opção! São escravos das editoras portuguesas como a Leya. São obrigados a encher os cofres de editoras portuguesas comprando impressos superfaturados. Em resumo, eles não preferem o que lhes falta é opção mesmo.
      No entanto agora tudo começa a mudar. As editoras portuguesas terão de achar outro mercado para explorar.

  4. Ora, pois! Criticar a maneira como mais de 80% dos falantes de sua língua materna a fala/escreve e ainda escrever o adjetivo ‘portuguesa’ com acento circunflexo é no mínimo incoerência de vossa parte!
    Cumpts

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