Tratado Sobre a Tolerância

Tinha adquirido recentemente o livro Tratado sobre a tolerância de Voltaire, edição portuguesa da Antígona de 1999, e apenas lhe tinha dado uma leitura muito oblíqua. Ao ler a notícia “L’Osservatore Romano ataca Saramago”, fui à procura do livro na prateleira e comecei a lê-lo numa leitura certa, muito interessada. Olhem, está sendo por estes dias o meu livro de cabeceira e é só porque os meus olhos já não me autorizam a ler um livro de um fôlego. E já não vai voltar para a prateleira sem o ter acabado. Comecei pela badana, como costumo fazer:

“A vida de Voltaire (1694-1778) é ela mesma um repositório das ocupações, desejos, prazeres, preocupações, sustos, projectos e combates, dos sonhos e dos pesadelos, das contradições e das decisões de três quartas partes do século XVIII europeu. A sua vasta obra tocou praticamente em todos os assuntos que havia para tratar, passou por quase todos os géneros literários, usou de todos os meios, da comédia à tragédia, da análise histórica ao panfleto circunstancial, do poema épico à narrativa mais satírica ou mais poética, das cartas de análise política e social à divulgação científica. […] “

Da notícia antes referida, transcrevo o último parágrafo:

“O texto passa em revista a produção literária do escritor, qualificando o romance O Evangelho Segundo Jesus Cristo ‘obra irreverente’ que constitui um ‘desafio à memória do cristianismo’ “

O que o Vaticano fez a Saramago através do seu órgão oficial de imprensa, foi anatematizar o Nobel português, ou seja, lançar sobre o escritor mais uma rajada de intolerância, como durante séculos usou fazer a crentes heréticos da mesma religião, quanto mais a um ateu. Daqui me atrevo a sugerir, a todos os deparantes de acaso ou adrede visitantes deste blogue, e ouso desafiar a Igreja, a começar pelo seu cume, o Vaticano, a ler (talvez reler) o Tratado sobre a tolerância de Voltaire. E, para o caso de alguém ter receio que o livro tenha peçonha herética que se apegue, aqui deixo ao menos um pequeno excerto:

O direito humano em caso algum pode fundar-se sobre outra coisa que não seja o direito de natureza. E o grande princípio, o princípio universal de um e do outro [o direito humano], é, em todos os pontos da terra: ‘Não faças o que não quererias que te fizessem.’ Ora, não se vê como, seguindo este princípio, um homem pode dizer a outro: ‘Crê naquilo em que eu creio e em que não podes crer, ou morrerás.’ É o que se diz em Portugal, em Espanha e em Goa. Outros países há em que presentemente as gentes se contentam em dizer: ´Crê ou abominar-te-ei; crê ou far-te-ei todo o mal possível; monstro, não tens a minha religião, não tens, portanto, religião alguma: terás que suscitar o horror dos teus vizinhos, da tua cidade,, da tua província.’ O direito de intolerância é, pois, absurdo e bárbaro: é o direito dos tigres, e é bem horrível: porque os tigres matam para comer e nós andámos a exterminar-nos por causa de parágrafos. (Do capítulo VI)

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