Logro/lucro, lograr/lucrar

RESPOSTA A UMA RESPOSTA

“Amigo,

Preciso de referências bibliográficas para um trabalho acadêmico em que abordo apenas superficialmente a etimologia do lucro antes de adentrar no tema central. Será que você pode me passar? Lhe serei eternamente grato.

Bruno Caraciolo

(81) 9606-7464”

Amigo,

1. Responderei apenas com a prata da casa, a saber, recorrendo tão-só ao material de trabalho que me rodeia aqui, pois não tenho, por agora, condições para me sujeitar ao pó das bibliotecas…

2. Antes de mais, quero acrescentar, aos dois dicionários que citei na postagem, mais três dos que tenho aqui ao lado: o da Academia das Ciências de Lisboa que, na entrada “logro”, considera também “desusado” como sinónimo de “lucro”; o Houaiss, que na entrada “logro”, tem a acepção “1 ant. ganho material, lucro, proveito” (abreviatura ant., segundo a chave, significa antigo, correspondendo a Desus. do Lello); e o Aurélio, que na entrada ‘logro’, acepção 4, tem a mesma coisa: ant.

3. Nos meus dicionários latinos, procurei a possível ligação entre o radical de lucro e o radical de luxuria (leitura latina lucsuria) e lux (leitura lucs). A este respeito, o Torrinha não me ajudou nada, mas a proximidade semântica sim: lucrum, luxuria, lux, todas nos remetem para certa euforia, alegria, brilho, ganância e até obscenidade, conceitos que vemos hoje bem apegados à palavra “lucro”…

4. No que o Torrinha me alargou caminho foi ter registado, na entrada “lux, lucis”, o seguinte parêntese recto, assim tal e qual: “[luc <*leuk ‘brilhar’]” (com sinal de longa, que eu não sei como pôr em cima do ‘u’ do radical latino). Ora “leuk” remete-nos para o adjectivo grego leukos que significa “branco” e que aparece numa porção de palavras cognatas, no dicionário grego e nos nossos dicionários, como, por exemplo, “leucócito”, “leucemia”, etc. (Não transcrevo em caracteres gregos, porque já sei que o browser estraga tudo…). Com a prata da casa, lá consegui chegar ao grego…

5. Mais uma coisinha que me está fazendo cócegas na cabeça e que podia muito bem ser, para o apresentador do referido programa, objecto de uma pergunta de jogo da língua. Seria assim: “das palavras divergentes ‘logro/lucro’, ‘lograr/lucrar’, qual delas se instalou primeiro como vocábulo da língua?” Lucro? Não, senhores. Regra geral, a mais antiga é a que nos veio por via popular. E quem souber um bocadinho da história da língua, há-de lembrar-se que as divergentes que nos vieram por via erudita o foram através dos literatos, poetas e escritores do século XVI, como Camões, Ferreira, Miranda e outros ilustres, que promoveram a grandiosa iniciativa de enriquecer o Português Moderno, indo buscar ao latim as palavras que serviram de étimo às que agora chamamos divergentes por via popular. Vamos aos dois pares que nos servem de título. Basta consultar um bom dicionário etimológico, por exemplo o de José Pedro Machado. Quanto a “logro”, lá se regista a sua data de entrada na língua no século XV; para “lucro”, só no século XVII; “lograr”, séc. XIII; “lucrar”, séc. XVII. Confirma a regra.

6. Se das minhas notas você puder tirar alguma ideia proveitosa, não quero que me fique eternamente grato: as palavras da família do advérbio, não tarda que sejam arcaísmos. Quanto a mim, já o são: não creio na absurda eternidade…

Sem proveito ou com algum dele para si, um abraço para você.

António Marques

Nota:
Dicionários que me serviram e que cito:

–Dicionário Complementar da Língua Portuguesa, Augusto Moreno, Edição de 1936
–Dicionário Prático Ilustrado, Lello & Irmãos Editores, 1981
–Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa, Edição Verbo,2001
–Dicionário HOUAISS da Língua Portuguesa, Edição Círculo de Leitores, 2002
–Novo AURÉLIO, O Dicionário da Língua Portuguesa Século XXI, Editora Nova Fronteira,1999
–Dicionário Latino – Português, Francisco Torrinha, 2º edição, Edições Maranus, 1942
–Dicionário Português-Latino, Francisco Torrinha, Domingos Barreira Editor, Porto, 1939
–Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, José Pedro Machado, Livros Horizonte, 3ª edição, 1977
–Dicionário Grego-Português e Português-Grego, P. Isidro Ferreira, S.J. , 5ª edição 1976

2 Respostas

  1. Amigo,

    Agradeço a pronta e útil ajuda. O trabalho acadêmico que estou fazendo me servirá para conclusão do curso de graduação em direito.

    O tema é Dividendos: aspectos jurídicos. Inicio a monografia com uma abordagem do objetivo das sociedades (no aspecto jurídico da palavra no direito brasileiro) no curso da história. A conclusão é de que a finalidade é sempre lucrativa, tendo o instituto surgido timidamente na idade antiga, renascido com vigor no renascimento comercial da idade média e tomado porte na idade moderna….

    No segundo capítulo eu trato de questões propriamente de direito, que não entendo servirem ao seu ótimo site, mas inicio esse capítulo com a abordagem da palavra lucro e filosofo um pouco sobre ser certo ou errado, nada conclusivo por não se o objeto próprio de meu trabalho. Nessa parte é que muito me servem suas considerações, para juntar o que digo sobre a antiguidade, tempo em que as sociedades não tinham relevo porque o lucro não era ocupação dos poderosos, e a conotação pejorativa que é dada ao termo lucro por muitos até hoje, no que exponho um pouco, muito pouco, a origem do étimo e ressalto a importância da cultura antiga para nossas opiniões e a influência disso na evolução do direito.

    Muito obrigado, de verdade lhe sou eternamente grato, ainda que não queiras. Desculpe por poluir essa belíssima página com minhas falhas de redação. Quando finalizar o trabalho posto novamente para pedir seu e-mail, lhe remeter e agradecer mais uma vez.

    Bruno Caraciolo.

    • Amigo,

      * *

      Na resposta que fiz editar no blogue, ao seu solicitado, dizia eu que, como recurso, apenas me valeria da prata da casa. Isto, para dizer que no tinha condies nem disponibilidade, neste momento, para suportar o p de bibliotecas e arquivos.

      Depois de ler, hoje, a sua resposta, mesmo sem ir alm da prata da casa, lembrei-me de abrir a Grande Enciclopdia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopdia , Lda LISBOA RIO DE JANEIRO e a ENCICLOPDIA VERBO Luso-Brasioleira de Cultura, Edio Sculo XXI, ambas na entrada *lucro*, na ltima mais desenvolvido do que na primeira. E achei que talvez lhe pudessem ser de alguma maneira teis, tendo em vista, se bem percebi, o que pretende.. A VERBO tem, em fim de texto, uma razovel bibliografia. No sei ainda digitalizar e no posso agora recorrer ao meu filho, que o meu editor do blogue. Se pudesse, fotocopiava e metia no *scan*

      Quem fala, aqui, de poluir?

      Compreendo a semntica do advrbio. Mas eu que sou um herege.

      Um grande abrao do

      Antnio Marques

      oinsulo@gmail.com

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