A ajuda que nós “imos” receber…

Estávamos no rescaldo da bela sesta, íamos ouvir o noticiário das quinze nesse dia 24 de Agosto. Tratava-se da ajuda que o governo ia dar aos pastores e lavradores do Soajo, devastado pelo fogo. De repente, a minha mulher chama. “Ouve, ouve!” Era o porta-voz dos lavradores: “A ajuda que ‘imos’ receber’ é boa porque é imediata, mas não chega!’”. Vejam vocês! Tinha eu acabado de ler o romance histórico A Voz dos Deuses, de João Aguiar, que tem como protagonistas Viriato e um ‘brácaro-lusitano’, neto de um rei brácaro e letrado o bastante para ser intérprete entre Lusitanos e Romanos. E ouço um português a falar “‘imos’ receber”, aquela primeira pessoa do plural do presente do indicativo, que lhes ficou da lídima forma latina – imus – tal como os invasores a usavam.
E, é claro, lembrei-me de quando eu ensinava na escola os verbos irregulares. Este tem uma particularidade:  o verbo ir, tal como qualquer boa gramática nos informa, conjuga-se com recurso a três temas verbais latinos: ire, vadere e esse. No presente do indicativo, por exemplo – vou, vais, vai, vamos, ides, vão – não é difícil verificar que apenas a segunda pessoa do plural – vós ides – provém de ire; as restantes cinco provêm de vadere. E se formos ao perfeito, todas as formas de todos os tempos do tema do perfeito provêm do verbo esse, do respectivo perfeito. Fui, foste, foi, fomos, fostes, foram (para mais, consultar gramáticas).

Como é que isto pôde acontecer? É uma questão do processo evolutivo das línguas que precisaria de um estudo profundíssimo e exaustivo, que, aqui e agora, escrevinhador e leitores, todos estamos dispensados de o fazer… Mas precisar de passar os setenta para ouvir um dos falantes do nosso querido português usar ‘imos’ na primeira pessoa do plural do presente do indicativo do verbo ir, forma que nos vem do latim clássico tal qual era dita por Cícero (o ‘o’ é uma questão ortográfica convencional), foi para mim um espanto, post meridianum somnum, que é como quem diz depois da soneca do meio-dia (depois da sesta)!

Por falar no verbo ir, lembro-me bem de uma aula em que tentava saber se os alunos o conjugavam correctamente. Pedi a um que dissesse o presente do conjuntivo. E ele começou:

– Que eu vá, que tu vás, que ele vá, que nós vamos, que vós… não sei…
E eu disse:
– Que vós vades, que eles vão.
– Que vós vades, professor?! Isso é português?!

É claro que é. Está sendo pouco usado; se calhar caindo em desuso, mas é o que as gramáticas registam para quem o quiser usar; e eu uso-o quando acho preciso. E porque não? Vamos deixá-lo morrer para que o verbo ir, além de tão embrulhado etimologicamente, fique defectivo?… E do conjuntivo forma-se o imperativo negativo: “filhos, não vades pelo sol, ide pela sombra!” E agora sei que, em alguma parte do país, haverá quem responda: “Sim, pai, nós imos pela sombra”.

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