As duas crónicas antípodas

Como acontece todas as quartas-feiras, há duas crónicas no DN que eu não deixo nunca de ler: a do Baptista-Bastos (página 7) e a do Vasco Graça Moura (página 54). Dois grandes e bons falantes (nível oral e nível escrito) da língua de Camões. Cada um deles apodado de “Escritor”, como sob o nome se pode ler. Eu por mim até acho que o jornal não fazia  nada de mais se pusesse lá, em ambos, “Grande escritor”. Ponto final parágrafo.Vamos lá então ao assunto: as duas crónicas no DN de 05/01/2011. Sobre o mesmo assunto, sobre o mesmo tema, sobre o mesmo candidato: Cavaco Silva.

Comecemos pela última: “A candidatura séria”.

A candidatura de Cavaco Silva tem sido construída a partir de um candidato que prestou provas mais do que bastantes quer da sua competência e capacidade políticas e técnicas, quer da maneira como interpreta os poderes que a Constituição lhe confere e como compreende o seu mandato de Chefe do Estado. É uma candidatura séria, nem ‘messiânica’ nem ‘sidonista’…

E por aí fora em estilo encomiástico , com o seguinte destacado: “Credibilidade de um candidato não pode medir-se em função da retórica eleitoral.”

Agora, a primeira: “Da inépcia como virtude”.

Devo confessar, à puridade, um desejo modesto, porém ardente: gostava de que o Presidente fosse um homem culto, lido, cordial e descontraído. Não o é. E o meu recatado desgosto consiste no facto de ele desencadear, com as deficiências culturais e aleijões de carácter que demonstra, um generalizado reflexo condicionado. Os dez anos que levou de primeiro-ministro constituíram um cerco e o esmagamento das desenvolturas e das exaltações que o 25 de Abril nos tinha proporcionado.

E por aí fora, no belo estilo irónico e, quando é preciso, sarcástico, como, no último parágrafo: “Já cansa repetir que o dr. Cavaco é um incidente desgraçado na nossa história próxima recente. Metáfora de um país sem juízo também não chega.”

Agora, para terminar. É claro que os dois cronistas são dois bons escritores, ambos homens de letras, homens de cultura. Nem duvido que, em governos consentâneos com as respectivas tendências políticas, ambos poderiam ser bons ministros da cultura. Mas tenho uma enorme dificuldade em perceber como é que um escritor, um poeta  do gabarito de VGM, que até já nos facultou, traduzidos, belos decassílabos de Dante e belos alexandrinos de Corneille, e que tanto merece, ainda, a nossa admiração pelo que militou contra o famigerado Acordo, tenha escrito uma crónica destas, a começar logo por este título – “A candidatura séria”. Assim mesmo, com a exclusividade semântica roçando o insulto às outras todas, que lhe confere o uso do artigo definido. A candidatura séria? A sério?…

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