“É nessa categoria que se pode arrumar os telegramas”?!

1. Texto no contexto.

“A maioria dos telegramas revelados pela WikiLeaks não exibe grande informação factual. Mas mostra bem como os diplomatas americanos vêem os países onde estão colocados e, sobretudo, que imagem transmitem destes a Washington. É nessa categoria que se pode arrumar os telegramas agora conhecidos da opinião de Thomas Stephenson sobre as Forças Armadas portuguesas.” (DN, 27/Fev/2011, Editorial, Texto 2).

2. Sintaxe à força.

O uso da partícula apassivante (ou, se preferirem, a conjugação reflexa com valor semântico de passiva)  radica no processo diacrónico-evolutivo da língua portuguesa e só muito recentemente alguns utentes com posição de ribalta (bem visíveis nos órgãos de comunicação social) insistem, por sua conta e risco – “porque sim, porque eu acho que é assim!” –, em transformar essa construção linguística de sempre, de tal forma  que a sintaxe fica sem maneira de se lhe poder dar a volta. Vejam.

3. Análise sintáctica.

“É nessa categoria que se pode arrumar os telegramas agora conhecidos […]

Deixando para trás o complemento de lugar (ou, se preferirem, de classificação…), obtido com por meio de construção enfática (“É nessa categoria que”), analisemos a restante oração principal nos seus elementos do sintagma verbal: “se pode arrumar os telegramas agora conhecidos”.

O que é que se pode arrumar? Os telegramas agora conhecidos. “Os telegramas” é sujeito ou complemento directo? Eis a questão. Na construção com partícula apassivante, “os telegramas” são o sujeito sintáctico. E assim sendo, o verbo terá de concordar com o sujeito. Daí: “se podem arrumar os telegramas agora conhecidos”.

Se não for assim – mas é assim, como se pode deduzir do processo evolutivo/diacrónico da língua, confirmado por unanimidade pelas gramáticas normativas  em uso nas escolas – se não for assim, e considerarmos “os telegramas” complemento directo, qual é o sujeito de “pode arrumar”? Será o “se”? Uma aberração contraditória do secular uso da apassivante: ao “se”, nunca, falantes gramáticos, atribuíram a função de sujeito.

4. Concluindo.

São os falantes que fazem a língua. São os gramáticos normativos que registam e ensinam a norma. Pois então:

“É nessa categoria que se podem arrumar os telegramas agora conhecidos” = É nessa categoria que podem ser arrumados os telegramas agora conhecidos.

5. Outro mau exemplo.

“Veja-se os casos dos idosos que morrem abandonados”. (Mesmo DN, última pág. Ao fundo).

Deveria ser: “Vejam-se os casos dos idosos…” (= sejam vistos os casos dos idosos…).

6. Caros deparantes de acaso ou adrede visitantes, não se deixem levar por quem defende que, em casos destes, talvez em nome da inovação, ao “se” se pode atribuir a função de sujeito, como se fosse pronome indefinido (que não é!).

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