De email a post: Pedro Mexia e o Acordo Ortográfico

(email de 26.05.11, assunto: “Atual”)

“Caro Senhor,

Em sala de espera de consultório médico, peguei numa ‘Atual’ (as aspas são de minha conta, já saberá porquê) e li com muita curiosidade a sua crónica Teoria do Hotel’, não tanto por ser sua como, sobretudo, pela nota final/advertência:  ‘Pedro Mexia escreve de acordo com a antiga ortografia’ (até rima). Li o texto todo, deveras interessante, sobretudo pela solidariedade de um cotado escritor com a minha zanga  em relação à nova ortografia, que eu considero o maior disparate que pregaram  à ‘nossa Língua’ de cá ou… à nossa Língua tout court.

Sou professor de Português aposentado, autor de Tento na Língua – livro e blogue – e, veja bem o Pedro Mexia, o meu protesto a essa porcaria chamada Acordo, a que o nosso governo, bem na linha de tudo o que nos tem feito, atento venerador e obrigado, assinou, tendo por bem a sujeição à ‘língua brasileira’, (novilatina pois) que, sendo embora, depois do italiano, a mais cantante novilatina, quis assim dominar a lusofonia, vesgamente por claros motivos economicistas e expansionistas, verdadeiro neocolonialisnmo em sentido  contrário. Professor de Português que, simplesmente, suspendeu qualquer assinatura que optou pela  ‘nova ortografia’, a começar pelo JL (que achou por bem não me devolver o sobrante que era mais de ano e meio pago…).

E agora diga-me, Pedro Mexia, que jeito tem, que sentido faz, uma revista, um jornal escritos em duas ortografias? Para mim, tudo isto não é mais do que mais uma estragação da Pátria que também é a nossa Língua! Eu chamei-lhe, em artigo que escrevi em O Correio de Pombal,  e no meu blogue, ao Acordo – este! – a ‘Alcácer-Quibir da nossa Língua’. A outra foi a da Pátria!
Em todo o caso, um abraço de parabéns pela coragem.

António Marques

P.S.: Tinha-me esquecido do P.S., sua citação de Greta Garbo: I want to be left alone.

N.B.: Na citação  em inglês, aproveitada do original,  o autor da mensagem tem em mente a ironia sugerida pelo espectro semântico da palavra left

_________________________________

(resposta enviada a 02.06.11)

“Caro António Marques:

Obrigado pelo seu e-mail.

Como se depreende desse tal nota (verdadeira “letra escarlate”, como no romance de Hawthorne), eu partilho das sua posição contra o Acordo.

Felizmente que o Expresso me permite a objecção de consciência, embora aquele ferrete final seja demasiado ostensivo e formulado de uma forma contestável.

Em todo o caso, não se trata de “coragem”, é apenas uma possibilidade que é dada aos cronistas (não aos jornalistas) e que eu pedi para mim.

Mas veja como são as coisas, daqui a quatro dias há eleições e quatro dos cinco partidos parlamentares nem se referem ao Acordo no seu programa eleitoral.

Aos partidos é que não ficava mal uma certa coragem.

Cordialmente

Pedro Mexia”

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