Duas crónicas do DN

Com a devida vénia, se transcrevem aqui:

1 – “O Marcelo diz que não percebe!”

(Baptista-Bastos, DN de 10/Agosto/2011, p. 7)

“Disse o Marcelo Rebelo de Sousa: “Não percebo porque é que o trabalho paga, e o capital não.” Claro que o Marcelo percebe muito bem o porquê do facto. Mas o Marcelo gosta muito de dizer coisas e de dissimular os factos. Não é com a aplicação de reajustamentos incidentais que o mundo se recompõe e Portugal melhora. O Marcelo, inteligente e perverso, nada tolo e muito ligeiro, é daqueles comentadores do óbvio que não arriscam nenhuma opinião contrária às opiniões dominantes. Irrita um pouco, à direita e à esquerda, mas trata-se de brotoeja passageira.

A afirmação do Marcelo, no comentário habitual, aos domingos, na TVI, constitui a repetição, dramática por ser repetição, do conteúdo do seu método de ideias. Acaso ele desejasse criar contenciosos, desfazer compromissos de classe e outros, atacar o preço pago pelo poder, tudo isso seriam razões do nosso contentamento. Sobretudo, do nosso esclarecimento fundamental. Mas não. No essencial, o Marcelo cala, consente, desvia, e crê, com cinismo e advertida fidelidade, no sistema louco que nos destrói e liquida lentamente.

O que é grave. O Marcelo é um intelectual muito arguto, muito lido, e muito capaz de nos surpreender. Assim, torna mais pesada a responsabilidade que lhe cabe nesta cumplicidade tenebrosa. O espectáculo mediático, por ele protagonizado, todos os domingos, é o fácil recurso à atenção dos outros. Claro que gosto de o ver e de o apreciar pessoalmente. Não faz batota. Ou, melhor, a batota que pratica é outra: pertence aos domínios da prestidigitação e do malabarismo. Sabe como nenhum outro preopinante das televisões, utilizar a frase-chave, a locução com efeito pirotécnico, a contradição como testemunho da diferença.

O Marcelo dá umas bicadas, pequeninas para não degenerarem em infecção, mas, infelizmente, nunca nos informa, nunca toma posição antagónica àquela que pertence ao discurso e à acção reinante. “Não percebo porque é que o trabalho paga, e o capital não.” A frase contém, no seu bojo, algo degradante, por imoral. O sistema de que é paladino permite e estimula a indignidade, aquela e outras mais.

O Marcelo, lido em Keynes, tem, desde há muito, conhecimento de que o capitalismo é autofágico porque não sobrevive à tentação de “fornecer os ricos com meios para que fiquem mais ricos”. E, também, de que esta etapa acelera o processo de dissolução do sistema, quando se lhe pode aplicar a metáfora de Dostoyevski, em Os Irmãos Karamazov: ‘Se não há Deus, tudo é permitido.’

Os factos estão ao alcance do nosso julgamento. As leis do “mercado” são-nos impostas sem debate, sem a formulação necessária para que as compreendamos.

O Marcelo diz que não percebe! Não percebe? Homessa!”

2 – “Docência e decência”

(Vasco Graça Moura, DN 10/Agosto/2011, p. 54)

“Não sei se Nuno Crato conseguirá pôr em prática os princípios que veio defendendo ao longo dos anos. Espero francamente que o consiga e não se fique pelas boas intenções, muito em especial no tocante ao ensino do português e da matemática, tanto no básico como no secundário.

O desastre da língua portuguesa tornou-se uma rotina trágica e pode ser visto a partir de vários ângulos que acabam por combinar-se do modo mais negativo.

Há quem entenda ser mais importante a mera eficácia comunicacional do que todos os aspectos ligados aos níveis qualitativos, mesmo elementares, de utilização da língua, enquanto elemento essencial de uma determinada identidade social e política e veículo de transmissão, de geração em geração, de testemunhos históricos, sociais e culturais imprescindíveis e irrenunciáveis. Há quem reconheça a importância da existência de uma norma-padrão, mas acrescente não ser viável defini-la de modo a distinguir o que é “correcto” do que é “incorrecto”, o que vem a redundar num álibi para o vale-tudo.

Por isso, aqui há uns anos, eu também perguntava neste jornal, se se poderia fazer tábua rasa da língua, entendida como modo de conhecimento e apreensão do mundo, depósito de um saber sedimentado pela memória e pela história, instrumento de criação cultural nas mais variadas modalidades do pensamento e da expressão, tão idóneo para a formação intelectual rigorosa como para a produção de efeitos estéticos irisada pelas emoções e por uma multiplicidade de valores afectivos, representando assim um potencial de riqueza inesgotável na comunicação humana.

Mas há mais problemas nas últimas décadas, o léxico da nossa língua “encolheu” consideravelmente, o que significa uma perda incalculável. É uma evidência que hoje a generalidade das pessoas, sobretudo as mais jovens e mesmo que tenham tido uma escolaridade supostamente normal, tem mais dificuldade em ler os chamados grandes autores. Não me refiro a casos especiais, como o de Aquilino Ribeiro. Nem a textos mais distantes de nós no tempo, como Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões ou Vieira. Mas basta pegar em Garrett, Herculano, Camilo, Cesário, Eça, António Nobre ou Fialho: um grande número de significados e de formulações, de maneiras de dizer e de escrever o mundo e a condição humana, escapa aos leitores, o que acarreta o desinteresse crescente e o abandono dessas leituras, com a consequência do esquecimento trágico daquilo que tais autores e obras representam.

Nota-se também uma crescente dificuldade no tocante à gramática, às regras de concordância, à conjugação verbal, à sintaxe… É raro encontrar-se uma construção em que se combinem correctamente orações coordenadas e subordinadas (esta terminologia não pretende, como é evidente, dever nada `TLEBS).

Se formos à maneira de falar, o abastardamento da pronúncia da nossa língua ultrapassa as raias do concebível. E sendo este um aspecto em que a escrita condicionará inevitavelmente a oralidade, o chamado Acordo Ortográfico, para além de outras enormidades, constitui um crime por que terão de ser acusados Presidentes da República, Parlamentos, Governos, ministros e universidades, estas, quase sempre e salvo honrosíssimas excepções, por uma demissão e um silêncio institucionais e vergonhosos numa matéria em que tinham necessariamente uma palavra decisiva a dizer.

Os programas oficiais, por razões de inovação pedagógica insensata, ou de ideologia, ou outras, deram cabo do ensino do português e demitiram-se do grau de exigência imprescindível. É claro que há outros responsáveis, para além dos pretensamente científicos: os políticos, as famílias, os pais e encarregados de educação, os professores…Há alguns anos, também escrevi neste lugar que estamos perante um círculo vicioso: não se aprendeu a ensinar bem porque não se aprendeu bem e não se aprende bem porque não se é bem ensinado.

Oxalá Nuno Crato consiga cortar este nó górdio: corrigir os programas e pôr os docentes à altura das suas responsabilidades, criando condições para que as novas gerações aprendam, falem e escrevam um português decente. Se ganhar esta batalha no plano da docência, não deixará de a ganhar atombam no plano da decência.”

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