Acordo Ortográfico: a bancarrota da língua!

Começo por convidar, na minha colaboração de hoje, todos os meus possíveis leitores a lerem o grande artigo assinado por Fernando Venâncio, publicado na revista LER n.º 105, Setembro de 2011, página 36, com chamada na capa: “ACORDO ORTOGRÁFICO – VISITA GUIADA AO REINO DA FALÁCIA”. E, para alguém que possa ter dúvidas sobre a palavra falácia, a seguir se explica o significado: “(Do latim: fallacia) Falatório; ruído de vozes; engano (de quem se engana) manha; arteirice; estratagema; artifício; ardil; logro; erro; engano (de quem quer enganar)” (Ver dicionários ).

Leram vocês bem: “reino da falácia”, do caos, da confusão, do agora-é-que-ninguém-se-entende! Ora vejam. A gente pega num simples semanário, por exemplo O Correio de Pombal ou, não vamos mais longe, O Rodilha. E qual é o panorama com que deparamos? Uma salgalhada de escritos, de textos, de artigos ou notícias, de comentários, que nos deixam a impressão de que a Língua Portuguesa, a nossa querida língua (que na feliz expressão de Pessoa é “a minha pátria”), vemos essa língua como que regressada uns séculos atrás, aos tempos em que não havia norma ortográfica única e cada falante/escrevente escrevia como muito bem lhe desse na veneta. Abra-se, por exemplo, uma edição antiga das Crónicas de Fernão Lopes ou da Peregrinaçom de Mendes Pinto, ou um qualquer livro dos tempos medievais; demo-nos ao trabalho de folhear as Crestomatias Arcaicas (v.g. a de Rodrigues Lapa), ou mais para diante, sim passando mesmo por Camões, por Vieira, por Camilo, por Eça, tudo antes da primeira grande reforma ortográfica que se deu já na República 1911: Leite de Vasconcelos, Carolina Michaëlis e C.ª- grandes linguistas)…

Mas voltemos, p. e, a O Correio de Pombal em que, na generalidade dos escritos (uns assinados, outros anónimos…), a bagunça é real. À “exceção” (é assim que o Acordo manda escrever…) do director e pouco mais, todos se estão arrogando o direito (ou pensarão no dever?…) de o aplicarem, um pouco ao calhas, cada um como pensa ou ouviu dizer que ele é, dando aquela impressão da ‘crestomatia arcaica’ de que atrás se fala. Nem o Director Prates Miguel, o bom Prates (como diriam os renascentistas), nosso bem conhecido grande cronista, bom cultor da língua, nem ele escapa a uma traiçãozinha (involuntária, é claro) dos revisores, que, na sua crónica do n.º 1119 de 15/9/11, lhe tiraram o hífen de “super-ministro” e lhe transformaram o maremoto em “marmoto”…

O que se está passando com a dita implementação do dito Acordo é simplesmente uma bagunça, é o caos linguístico; é uma desgraça! É a bancarrota da Língua! Uma desgraça, sim! Semelhante à desgraça política a que conduziram o país: os que assinaram o dito acordo foram, são, os mesmos que conduziram o País ao trágico Estado em que estamos! E os que consentem na assinatura passada e, com o poder na mão, não cuidam de pôr travão ao caos linguístico que se está verificando nas escolas (nas escolas, my god!), na comunicação social, falada/escrita/ouvida/lida.

Só para se ter uma ideia do que se exorciza no artigo cuja referência deu início a este texto, dele se transcreve aqui um quadro comparativo (“Descubra algumas diferenças”):

Temos aqui um pequeno espelho da arbitrariedade, da desrazoabilidade, da insensatez “dessa coisa obscena chamada Acordo”, na acertada expressão de Vasco Graça Moura.

Quem nos acode?! Quem acode à nossa língua?!

Uma resposta

  1. Permita-me uma correcção, mas os revisores andam (ou deviam andar) a tirar o hífen de «superministro» desde pelo menos 1945…

    «Super» só deve ser seguido de hífen quando o segundo elemento começa por h ou r — e isto desde há 66 anos.

    É esse aliás um dos aspectos mais interessantes do dito acordo: lá pelos idos de 2077, ainda há-de reinar por aí a maior das balbúrdias.

    Já agora, o novo acordo também autoriza (não obriga, como proíbe em «pára») o acento circunflexo em «dêmos».

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