Estranha forma de cantar

Aparece às vezes, em ondas, uma espécie de febre de cantar canções de outros, sobretudo de outros que foram grandes entre os maiores. E pergunto: qualquer pessoa das cantigas se pode arrogar o direito de cantar a sua versão de cantigas de outros? Há tempos, a vítima foi o Zeca Afonso. Todos os dias, a toda a hora, a gente ouvia na(s) rádio(s) uma canção que logo se percebia que era do grande cantor – o maior. E os meus botões de ouvinte iam ouvindo a cantiga, sempre resmungando a saudade da genuína, cantada pelo génio, ali pretensamente imitado. Quanto ao Zeca, foi uma praga. De tal forma que nos íamos esquecendo dele enquanto nos entediávamos com a imitação: deles, delas, de todos. São os cantores-cucos, que até são, alguns deles, muito grandes, os maiores no seu próprio ninho! Mas atenção: nada de abusos!

Depois, foi a grande Amália: Estranha forma de vida (e outras) inspirava a ideia dessa estranha forma de cantar. A seguir, o grande Variações. E lá vinha sempre o resmungo dos meus botões que me obriga a clicar o off! Safa!…
E, pelos vistos, nem os próprio génios se livram da tentação! Agora é o génio do fado, o grande Carmo, acompanhado por outro génio – o grande Sassetti do piano e do jazz. Tiveram juntos a infeliz ideia de pegar numa canção genial do genial Fausto. E, agora, por tudo e por nada, se queremos ouvir a bela canção Foi por ela, bela, perfeita, genial, só nos é permitido ouvir a imitação de que se faz propaganda como se ela fosse “a perfeição aperfeiçoada”… E tal não é possível. “Perfeito” é um daqueles adjectivos que, no grau normal, já é superlativo, absoluto ou relativo. O que é perfeito é insuperável, mesmo que o(s) imitador(es) seja(m), como é o caso, o(s) melhor(es) em determinado género da canção ou da música.
Ora vejam. Vamos supor que o grande Pessoa um dia se tivesse lembrado de imitar Os Lusíadas… O ridículo que ele sentiria pelo seu pastiche! E no entanto ele, como grande poeta, de certo modo ombreando com o Épico, não era artista para imitar, mas, inspirado nele e na sua obra, criou coisas, algumas de algum modo esteticamente mais ricas do que as da Fonte…
Daqui peço, encarecidamente, a todos os radialistas, com especial referência aos da Antena 1, que me dêem, muitas vezes, Foi por ela, sim, mas a original genuína, do genial Fausto por Fausto!… Se não, é estragação que prejudica: o criador, o imitador e, é claro, o ouvinte! Ficamos todos prejudicados!

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