“Presidenta”: extravagância caprichosa, gratuita e inútil

Pretender que presidenta seja a forma feminina de presidente não é mais do que… uma pretensão, extravagante, caprichosa, gratuita e inútil (e talvez antifeminista…). Ao mesmo tempo, revela um certo desconhecimento do processo evolutivo-etimológico das línguas em geral, e, em particular, da nossa língua – a língua portuguesa. Feminino forçado. E nem me venham dizer que a notoriedade de quem lançou, por aqui, a extravagante ideia, ou a sua relação com o falecido Nobel, só por isso, para tanto lhe dá autoridade. Nem tão-pouco, no segundo caso mais conhecido, o facto de ter sido a primeira mulher eleita para o cargo de presidente do Brasil, nem tão pouco isso, lhe dá a faculdade de se arrogar o direito de poder impor tal extravagância linguística aos falantes que lhe deram o voto para a presidência; considerando, essas agora ilustres senhoras, que se trata de atitude legítima de militância feminista. De maneira nenhuma. Já diremos porquê. Mas, antes de prosseguir, que fique bem claro, aqui, o meu grande respeito por essas duas figuras femininas, grandes mulheres progressistas, cada uma pelas suas razões, cada uma na sua circunstância. (Se feministas correctas, isso é outra coisa…).

“Presidenta” porque é mulher? Não! Por motivo nenhum. Por motivo gramatical, muito menos! E é simples. Presidente é o particípio presente do verbo presidir. Particípio, que também em português é uniforme, o que em linguagem gramatical quer dizer que tem uma única forma para os dois géneros: o presidente homem, a presidente mulher. Vejam bem: o machismo, que abunda nas regras gramaticais tradicionais, no caso do particípio presente, é uma bela excepção: igualdade para todos os géneros. Pode-se dizer ‘todos’ porque, em latim, é uniforme para os três géneros – masculino, feminino e neutro. Querem ver? Homo præsidens – o homem presidente (que preside); mulier præsidens – a mulher presidente (que preside); animal præsidens – o animal presidente (que preside, em linguagem de fábula, claro, mas real em linguagem gramatical). Convém acrescentar que, na flexão latina, apenas é biforme no acusativo: præsidentem, præsidens; mas note-se que, para os dois géneros de gente, homem e mulher, continua uniforme – præsidentem; para o neutro, præsidens, porque o neutro tem sempre o acusativo igual ao nominativo. Desculpem lá esta deriva gramatical, mas achei que era conveniente para dizer que, ao menos neste ponto, parece que o processo linguístico respeita, e, quiçá…, preconiza, a igualdade entre os dois géneros que têm a ver com homem e mulher.

Para que a coisa não fique no ar, dando lugar a elucubrações sobre esta minha opinião (mais do que opinião, parece-me tese comprovada), continuemos. O particípio presente verbal é, pois, já dos tempos latinos, adjectivo uniforme como fica dito. E aí estará a razão por que, no processo evolutivo do português, não se lhe atribuiu a forma feminina diferente da masculina, nem mesmo quando o particípio (adjectivo), pela chamada derivação imprópria, se substantiva, como no caso de presidente. Se não, vejamos se em outros (ou em todos os outros), alguma vez teve sucesso a tentativa de usar o particípio no feminino forçado. Basta referir alguns exemplos. Alguma mulher estudante quer ser considerada “estudanta”? Alguma mulher amante quer ser “amanta”? Uma mulher pedinte quer ser tratada por “pedinta”? Ou uma mulher lente, por “lenta”? Uma escrevente quer ser “escreventa”? E por aí fora: experimente todos os verbos que lhe apeteça. Nenhum admite essa flexão à força…

Nenhum mesmo? Ah! Apenas me lembro agora de um que admitiu, na história da língua e da pátria, a excepção que, é bem de ver, terá sido convencionada por imposição protocolar e conveniência das dinastias (Portugal e Espanha): trata-se da palavra infanta que, desde fins do século XV, foi determinada como tratamento das filhas dos reis que não fossem herdeiras do trono. Decidiu-se, pois, que uma qualquer D. Maria, princesa não herdeira, fosse a Infanta D.Maria. “Infante” tem a ver com o particípio presente do verbo depoente latino – for, fatus sum – que significa falar; fans, fantis, na negativa, deu infans, infantis (que não fala).

4 Respostas

  1. É muitíssimo diferente (ou por isso mesmo), mas temos «governante» e «governanta».

  2. Caro(a) Senhor(a),

    Mesmo anónimo, decidi responder. Em dois pontos:

    1 – Não percebi a sua sintaxe: não sei onde está o sujeito – quem ou o quê “é muitíssimo diferente”? Também fico sem saber qual o termo de comparação: diferente de quê?

    2. Acho que foi mal escolhida mais essa excepção. Pergunte às senhoras ministras (ou a quaisquer outras “governantes”) se elas gostariam de ser tratadas por “governantas”.

    Com os meus respeitos, sempre ao dispor

    António Marques
    https://tentolingua.wordpress.com

  3. António, todos os principais gramáticos brasileiros registram a palavra “presidenta” como correta.

    Em seu Dicionário de Masculinos e Femininos, Aldo Canazio (1960) registra presidenta como feminino de presidente (ao lado de [a] presidente como substantivo de dois gêneros).

    Desde sua 1ª edição (1963), a Moderna Gramática Portuguesa de Evanildo Bechara já registrava e abonava essa forma feminina:

    “Podemos distinguir, na manifestação do feminino, os seguintes processos […] com a mudança ou acréscimo ao radical, suprimindo a vogal temática […] Os [terminados] em –e uns há que ficam invariáveis, outros acrescentam –a depois de suprir a vogal temática: alfaiate à alfaiat(e) + a à alfaiata.

    Variam:

    alfaiate – alfaiata
    infante – infanta
    governante – governanta
    presidente – presidenta
    parente – parenta
    monge – monja
    (p. 84, grifo nosso)”

    Celso Pedro Luft, em seu Dicionário Gramatical da Língua Portuguesa (1966), ensina que “os substantivos terminados em e são geralmente uniformes (…); há, porém, alguns que trocam o e por a: elefante – elefanta; governante – governanta; infante – infanta;[…] ; parente – parenta; mais raros: […] giganta; hóspeda; presidenta; alfaiata. Em ABC da Língua Culta, o autor reafirma: “[…] substantivo que se pode tomar como comum de dois gêneros (sexo) para ‘pessoa que preside’: o presidente, a presidente; mas também comporta feminização flexional: a presidenta”.

    Rocha Lima (2007), em sua Gramática Normativa da Língua Portuguesa, reconhece: “a força do uso já consagrou as formas flexionadas infanta, parenta e presidenta” (p. 73).

    Luiz Antonio Sacconi (2010), em Nossa Gramática Completa Sacconi, também registra “presidenta” como o feminino de presidente (p. 133).

    Cegalla (2008) diz o seguinte em seu Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa: “É forma dicionarizada e correta, ao lado de presidente. A presidenta da Nicarágua fez um pronunciamento à Nação. / A presidente das Filipinas pediu o apoio o apoio do povo para o seu governo (p. 336).

    Finalmente, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (2009), que registra todas as palavras em uso oficial na língua portuguesa, legitima a palavra (p. 674).

    • Davi,

      Obrigado pelo seu longo comentário que li atentamente. Longo sobretudo pelas muitas citações que engloba, o que considero expressão da importância que você dá à minha opinião (tese) expressa na postagem. Com muito gosto, respondo, pois:

      1. A sua profusa resposta sai fora do meu tema que é, restritiva e exclusivamente, o feminino do particípio presente dos verbos, isto é, o aspecto flexional do particípio presente e tão-só no que respeita ao género: segundo a generalidade dos melhores gramáticos do português (portugueses e brasileiros), o particípio presente é uniforme quanto ao género, tal como nos veio da língua/mater latina… Não terei em conta, portanto, tudo – e é de mais – o que o fez alargar o âmbito do tema em causa para “os [terminados] em ‘e’ …”, ou seja todos os nomes (substantivos e adjectivos) desde que terminem em ‘e’. Não é disso – repito – que trata o meu texto.

      2. .A questão que ponho no meu post não trata da “presidenta” registada nos dicionários, brasileiros e… portugueses, a não ser para reforçar a origem popular do dito. Trata-se, sim, de contestar o uso linguístico dessa forma do género feminino. Aceito a forma “presidenta” como uso extravagante, caprichoso, gratuito e inútil (nada feminista, ao contrário – eu acho – da intenção das duas ilustres “presidentas” referidas). Além disso, penso que a “presidenta” registada nos dicionários brasileiros e portugueses tem certamente a ver com os níveis do uso linguístico, a começar pela dicotomia oral/escrito e/ou os níveis popular/erudito… E nesse ponto, acho que a forma “presidenta”, no que respeita à linguagem, é mais de uso popular do que erudito, é mais de nível oral do que escrito. O que me permitiria acrescentar, no título, o adjectivo “populista”.ou demagógico que, como saberá, são – um de raiz latina e outro de raiz grega – sinónimos…

      3.Dito isto, e apesar disto, não me coíbo de ir buscar, a uma lista de um citado seu, todos os particípios dela constantes, desprezando as palavras que o não sejam (alfaiate e monge): infanta, governanta, presidenta, parenta. Para lhe dizer que são excepções à regra do uniformismo, afirmada e provada na minha postagem. Para dizer também que a forma (irregular) dos referidos femininos é, em todos esses casos, um desvio da norma, cuja origem processual linguística passo a explicar. À excepção da primeira, todas as outras têm mais ou menos origem popular.

      Infante/a – Como está referido no meu texto “blogal” que deu origem ao seu reparo, este feminino foi determinado pelo poder real, em finais do século XV, por uma razão aparentemente de Estado.

      Governante/a – de origem popular, se quiser sociolinguística, como os dicionários levam a crer, na definição e até no facto de a registarem fora do registo da forma que mesmo assim consideram… uniforme (dos dois géneros): governante.

      Presidente/a – de origem popular, sociolinguística e política, o que já é sugerido nos adjectivos com que a defino no meu texto.

      Parente/a – de origem popular. Ainda que não haja, no português moderno, verbo de que seja particípio, “parente” provém do particípio do verbo latino “parere”.

      Só me resta chamar a atenção para as seguintes citações de dicionários que, é óbvio, confirmam o que fica dito:

      “Governanta. S.f. Mulher que toma a seu cargo a direcção de casa alheia, ou que trata das crianças da casa; aia” (Pedro Machado)

      “Presidenta. S.f. Mulher que preside; mulher de um presidente” (Pedro Machado).

      “Presidenta s.f. […] 4. p. us. esposa do presidente. USO em Portugal, o termo preferido é presidente, sendo presidenta usado de forma pejorativa ou informal” (Dic. Houaiss).

      António Marques

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