Uma nota – alheia – de fim de ano

Com a devida vénia, emprestada de Vasco Graça Moura (in DN de 28/12/2011, p. 54: “Duas notas de fim de ano”):

“2. A nossa língua tão acrisoladamente dinâmica, que se mais mundo houvera lá chegara, teve há poucos dias mais uns vislumbres de triunfal expansão. O Governo admitiu a hipótese de Portugal passar a exportar os seus tão habilitados professores para os quatro cantos do mundo, e, em especial, para as Áfricas e para os Brasis.
Parece todavia que esses ingratos países, aos quais nos tínhamos dignado dar a língua, a independência e a razão de ser, não apreciaram a oferta por aí além. E terão feito saber que passam bem o magistério assim prestimosamente disponibilizado de tantos agentes pedagógicos, tão lastimáveis quanto impreparados, ministrado naquela que, com pouca corrupção e alguma hiperbólica fantasia, os deuses costumavam crer que era a língua latina.
Foi uma atitude deveras displicente, tomada não apenas na quadra natalícia que atravessamos, mas numa ocasião em que se proclama com base nos mais acurados estudos especializados em metafísicas de bláblá, que a língua lusitana, essa “última flor do Lácio”, só ela, imagine-se, vale nada menos do que 17% do PIB. Mas compreende-se: nem Angola nem Moçambique estão interessados em professores que se ponham a ensinar criancinhas e adultos analfabetos a escrever grafias suculentas como ‘percessão’, ‘recessão’, ‘espetador’, ‘precetor’, e mais coisas assim, porque nos seus territórios nacionais está oficialmente adoptada a ortografia portuguesa e não um reles enxovalho para a língua comum.
Quanto ao Brasil, com todas as divergências lá implicadas pela ortografia brasileira, o saudável país irmão também não está interessado em que as turmas escrevam ‘percessão’, ‘recessão’, ‘espetador’, ‘precetor’, e coisas assim, que lhe desfiguram a maneira de escrever e de falar.
O resultado está bem à vista: o statu quo ortográfico, no universo da língua portuguesa, vai manter-se com três grafias oficiais e divergentes: a portuguesa propriamente dita, a vigorar plenamente em Angola e Moçambique, a brasileira propriamente dita, institucionalizada e praticada no Brasil desde há décadas; e, last but not least, a imbecil utilizada e imposta em Portugal por políticos que não sabiam nem sabem o que estão a fazer, que atropelaram a Constituição e a Lei e que só fazem jus ao qualificativo de irresponsáveis sem escrúpulos.
Duas conclusões neste fim de ano tão nefasto. […] e o Acordo Ortográfico não está em vigor. Enquanto estas coisa não forem corrigidas, Portugal continua a ser […] uma vergonha cultural e um estado de torto.”

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