Correio da Manhã / Correio do Leitor

Exmos Senhores,

Não sou leitor assíduo do vosso jornal, mas, desde que, num levantamento que fiz da imprensa portuguesa que continua a ortografar em português, fiquei surpreendido pela positiva, ao verificar que entre os quatro diários que se recusam a ‘adotar’ “uma coisa obscena chamada Acordo Ortográfico”, na expressiva opinião de Vasco Graça Moura (vide DN 29/06/11, p. 54: crónica ‘O reino da insensatez’) – entre esses diários e mais um semanário –, o Correio da Manhã é dos que continuam (e muito bem na minha opinião!) a ser fiel à língua de Camões, ortografada segundo a grande reforma de 45. Acho que compreendo as vossas razões – que me parecem ser: o respeito por um grande público de “legência” adquirido e espero que sejam também as ‘minhas’ razões por que me recuso e recusarei a ‘adotar’ um AO como este, que considero uma imposição, subservientemente acatada por governantes nossos insensatos e se calhar ignorantes – colonialismo ao invés: ex-colónia querendo impor à ex-metrópole.

A motivação para esta carta/email, está na notícia com chamada na primeira página da vossa edição de hoje – 09/08/12: “Iva Domingues troca gramática”. Não posso meter-me na discussão, porque não vi o uso que a apresentadora fez do particípio. Mas lembrei-me da rubrica 68 do meu livro Tento na Língua – 1 (Plátano Editora), a qual junto já a seguir.

Com os meus melhores cumprimentos e votos de que continuem, já que, em minha modesta mas firme opinião, continuam no caminho certo.

“68. PARTICÍPIO DUPLO : UM CASO ESTRANHO…

O particípio passado, a que alguns gramáticos também chamam passivo (mas, passivo… só nos verbos transitivos, claro…), em alguns verbos tem dupla forma: uma regular, formada na própria língua, outra irregular, que já vem do particípio latino. Exemplo: soltado, solto. As listas das gramáticas referem todas um exemplo de verbo – aceitar – cujo particípio irregular tem dupla forma: aceito, aceite. Tem, portanto, um triplo particípio: aceitado, aceito, aceite.

Desde que me lembro, as gramáticas apresentam, para o duplo particípio, uma regra que admite muitas excepções: a forma regular usa-se com os auxiliares ter e haver; a irregular com ser e estar.

Em todas as listas que consultei, as duas (três) formas do particípio, a regular e a(s) irregular(es) têm o mesmo radical do respectivo verbo: aceitado, aceite (aceito); rompido, roto; absorvido, absorto, etc. Apenas um verbo – matar – recorre a outro verbo com radical diferente – morrer – para a forma irregular do particípio. Fenómeno linguístico estranho. Tanto mais estranho quanto é certo que um verbo transitivo – matar –, brutalmente activo!, recorre a um verbo intransitivo (cujo sujeito não tem mais do que… sujeitar-se, aceitar), para lhe pedir emprestado o seu particípio, que passa a ser transitivo, activo. Com a agravante de que nos falantes se revela a tendência crescente para substituir a forma regular – matado – pela irregular emprestada – morto. Segundo as regras gramaticais, repetidas nos compêndios de década em década, é bem correcto dizer-se: ter matado, tinha matado. Bem correcto e até bem mais expressivo!

E o mais curioso é que o fenómeno linguístico português não se dá nas línguas irmãs da nossa. Vejam se algum espanhol é capaz de dizer habia muerto por habia matado. O verbo perdia aquela força brutal que lhe é própria… E é o que acontece ao verbo português. Ora vejam qual a forma mais expressiva:

Os bandidos tinham morto toda aquela gente!

Os bandidos tinham matado toda aquela gente!

É caso para perguntar: Porquê o pejo, o medo do particípio matado?… Não será este um fenómeno a merecer estudo por parte de psicossociolinguistas?” (TENTO NA LÍNGUA! – 1, rubrica 68, Plátano Editora)

P.S. (acrescentado agora): Apesar de considerar insensato e obsceno o AO, talvez não deixem de ter razão os contestatários de Iva Domingues. Só me parece que não deviam impor a obrigatoriedade, porque a prática de usar morto em vez de matado generalizou-se, certamente, por uma razão psicossociolinguística. (A.M.)

Advertisements

Uma resposta

  1. A lingua MÃE deve continuar LINDA ! Os “filhotes” que usem em cada país as modificações que queiram e isso vai enriquecer nossa lingua .

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: