Foguetório sumptuário da crise

“Fogo de artifício na Madeira custará até 860 mil euros” (breve noticia no jornal i de 30/Jul/12, pág. 4)

O garoto que, chegado aos oitenta e escrevendo estas breves linhas de comentário, lembra-se, tão bem, de correr atrás dos foguetes para apanhar as canas! Quando os “musiqueiros” (assim se dizia lá na minha aldeia) paravam à nossa porta e o Pai, que tinha tirado de trás da porta do seu quarto os dois foguetes da festa anterior, deitava os foguetes ao ar, nós, os garotos da casa e outros que vinham com a música, fixávamos os estoiros dos foguetes lá nas alturas e corríamos para onde calculávamos que as canas iriam cair. Depois – que alegria ! – trazíamos a cana com o rastilho queimado, como troféu da nossa glória!

Agora, foram as Festas do Bodo! E, de minutos a minutos, lá vinham outra vez os estrondos assustadores, que nos faziam sobressaltar, deixando os ares conspurcados e a atmosfera mais pobre do puro e benfazejo oxigénio! Já não bastava todo o País a arder pelo fogo criminoso! E eu pergunto: não seria já de mais a crise e os fogos danosos por todo o lado? Que não! Faltava ainda o fogo-de-artifício delapidando, além do mais, o erário municipal (que integra o erário público). E toca de sugar, até ao tutano, os magros bolsos da malta!

Vejam agora vocês. 860 mil euros para o fogo de artifício na Madeira; mais 800 mil euros para o estádio das Meirinhas (860+800 = 1.680.000, um milhão, seiscentos e oitenta mil). Até parece que podemos andar a brincar aos milhões. A brincar? A delapidar! Mas deixemos a Madeira, então, para os brincalhões da Madeira!

Mas Pombal, para quem deixaremos? Vamos ao quase-milhão das Meirinhas. Não chegariam, estes milhares, para, por exemplo, pensando na peonagem pombalina, pôr as passadeiras que faltam na grande Avenida ‘da Senhora de Belém’ e em outras ruas da cidade? E mais, continuando a pensar no pouco respeito que por cá se tem aos peões, não daria para nivelar os passeios que, desnivelados como estão, são um grande perigo sobretudo para idosos, crianças e outros ‘andadores’ com dificuldades (e vêem-se por aí tantos…) de locomoção?

E se alguém, lá do Alto, se lembrasse de promulgar uma lei (ou um decreto-lei) que proibisse o fogo de artifício e outros gastos ‘lúdico-sumptuários’ durante a crise (ou antes – cf. Paul Krugman: Acabem Com Esta Crise – Já!, Ed. Presença)?

Receio de que a ausência do fogo diminua a presença de turistas? E quem sabe? Experimentar uma propaganda noutro sentido: “Estamos em crise! Venham ver e ouvir a Madeira sem fogo! Venham ver e ouvir o Bodo sem fogo!”

N.B.: Esta postagem começou a ser escrita antes da anterior.

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