“Terá o povo de esquerda capacidade de dar a volta por cima?”

“Respira-se um ar de revolta, parecem quebrar-se as amarras do conformismo. Terá o povo de esquerda capacidade (e vontade) de ‘dar a volta por cima’ ?” (António Avelãs, in “Quem dá o que não é seu… é ladrão”, Jornal da FENPROF, Setembro 2012, p. 12)

Acabo de receber o Jornal da Fenprof (nº 261/Set/2012), que acrescentou a minha tristeza, por várias razões, a primeira das quais, a mais directa, a mais imediata, é sem dúvida ser escrita numa língua que nem é brasileiro nem é português: é ‘acordática’ (passe o neologismo), além de outras incorrecções (ou gralhas?), como, por exemplo, “e ingere na sua soberania” (ingerir só tem esta semântica na conjugação reflexa, como referem todos os bons dicionários). Mas adiante. Passemos à pergunta de António Avelãs, a qual serve de título: “Terá o povo de esquerda capacidade (e vontade) de dar a volta por cima?” Eu respondo já. O ‘povo de esquerda’ docente, pelos vistos, não tem!

A gente pega nas revistas dos sindicatos docentes (de esquerda). Quer ler a tristeza da classe docente, da Escola e da política educativa, e a minha tristeza esbarra logo com a barreira da língua em que a revista está escrita (ortografada). (E não esperem que eu me cale! Não calo!) Vamos ao primeiro parágrafo do texto de Avelãs, l. 9/10: “…da avaliação da ‘troika’ e a receção [sic] da próxima tranche…”; daí passemos à p. 16: “AÇÃO [sic] SINDICAL”. Realçado: “A Cimeira da Frente Comum […] reduzem os rendimentos das famílias e provocam recessão…” Receção/recessão, pois! Palavras quê? Homófonas? Não, talvez matrafonas, ou esquisitas! Passemos à p. 9 para ler: “a listagem de atividades que deverão ser consideradas letivas” e não nos deixemos levar de mais pela “relação afetiva”. Não é brincadeira: é tristeza que nos faz aftas no afecto da Língua!

“Terá o povo de esquerda capacidade (e vontade) de dar a volta por cima?” Não tem! Por estas e por outras… Mas deixem-me terminar com uma pergunta, que também não é só retórica. O que é que está o povo de esquerda (docente) deixando fazer à Língua, com este triste espectáculo projectado nas revistas dos seus sindicatos? Brincar a uma coisa obscena chamada “Acordo Ortográfico”?

(Ver neste blogue tudo o que se refere ao AO, especialmente As mudas e os espetadores).

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