Breve apontamento sobre gatos em fábulas

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Apresentação do livro LUANA E O GATO FARUNFA, de Cidália Couto (ilustrado por Ana Fernandes), Folheto Edições.

1. Cidália e o RODILHA. Ao pedir-me colaboração para o seu (nosso) Rodilha que, com um grupo de amigas e amigos, estava já decidido ser dado à luz, aceitei com muito gosto, pondo apenas uma condição; em duas palavras: livre pensamento, livre expressão. E posso afirmar que, no que respeita aos meus textos, a condição – honra lhe seja! – foi inteiramente cumprida pela querida Cidália.
Eu não conhecia esta jovem senhora, a não ser de nome, sabendo que era funcionária no Centro de Saúde da Ilha. Pelo que dela ouvia dizer, tendo em conta a ARCUPS e a sua participação activa, ouvia falar no seu empenho por tudo o que tinha a ver com a comunidade local, onde o mais visível acabou por ser o jornal Rodilha, em que, por convite seu, desde o primeiro número, tive a honra e o prazer de colaborar. Posso dizer ainda, aqui, que entre nós se deu uma verdadeira empatia, mesmo amizade.
Não sei ainda o que vai acontecer ao Rodilha. Se continuar, daqui e desde já, direi que, se me for solicitado pelos jovens continuadores, com muito gosto poderei continuar a minha modesta colaboração, acrescentando apenas outra condição: que os meus textos, em português, não sejam traduzidos numa língua que não é português nem brasileiro. E se o Rodilha, com ou sem a minha participação, não tiver continuidade, terei muita pena que uma ideia tão bonita venha a ser tão fugaz…

2. “Luana e o Gato Farunfa”. Mais uma bela criação que, logo pelo título, se vê que é destinada a crianças – literatura infanto-juvenil, pois. Simples e bela criação de Cidália Couto, que Ana Fernandes ilustrou. E de tal maneira que me apetece dizer que se trata de co-autoria. Veja-se, por exemplo, o salto para o telhado de Anacleto, como está bem traduzido na ilustração! Até lembra logo o Mago – o gatão dos Bichos, de Miguel Torga –, que ele faz saltar de telhado em telhado, também ao luar, mas, é claro, com menos inocência do que o Farunfa, já que o belo conto torguiano se destina a gente mais crescida e, por isso, também mais malandreca… Veja-se bem a diferença: a ternura e o mimanço, a inocência do Farunfa e a malandrice felinamente libertina do ‘cioso’ Mago, tendo em conta aquele felino estardalhaço, ruidoso, que ele provoca, generalizado pelos telhados do bairro – “obsceno”, dirão os humanos… Mas deixemos a literatura para o ponto seguinte. Só dizer, ainda, que se percebe logo que a obrinha se enquadra na literatura infantil. Note-se o estilo com recurso à linguagem diminutiva, repetitiva e onomatopaica, naïf q.b., sugerindo o suave roçar do pêlo, a meiguice e a viveza do olhar e do miar que é o falar do gato. Onomatopeia que a ilustradora soube, tão bem, visualizar na ilustração, de certo modo impressionista, dando assim razão à sentença de Renoir que diz: “É preciso absolutamente pintar gatos”.

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3. Os gatos na literatura. A Luana, quer dizer, a Cidália obrigou-me a voltar aos alfarrábios literários e, como não podia deixar de ser, a navegar; na Internet, claro, donde tirei esta citação de que não consegui saber o nome do autor: “Os felinos sempre fascinaram os humanos , que os domesticaram há cerca de 10 mil anos, especialmente com intuito de proteger suas colheitas dos roedores. Várias figuras ancestrais tratam o gato como uma figura mitológica e misteriosa representando deuses e também associando-o à reencarnação, à bruxaria e aos demónios”
Interroguei-me se, quando há mais de 60 anos, tinha estudado alguma fábula latina com gatos, dos célebres fabulistas, Esopo (grego do séc. VI a. C.) e Fedro (latino, do séc. I da nossa era), teria traduzido alguma com gatos. Penso que não. Mas agora vi que há, pois então… De Esopo, pelo menos nove vêm referidas no Google, algumas com o texto em português/brasileiro. Esopo que é considerado, na cultura e na literatura ocidental, o pai das fábulas. Seis séculos depois, Fedro, imitou-o, aproveitou temas e foi o grande fabulista da literatura latina. Dezasseis séculos mais tarde, no século XVII, vem La Fontaine que, também ele, foi buscar muitos dos seus temas, alguns deles com gatos, às fábulas greco-latinas, como, por exemplo, O Gato e a Raposa. Foi ele que disse: “Eu sirvo-me de animais para instruir os homens”.
Além dos mais célebres, já referidos, há outros grandes fabulistas, na história das letras (e da pintura), entre os quais certamente o homem mais importante do Renascimento, tão ilustre nas coisas da Arte e da Ciência. E o fabulista, que ele também foi, tem sido de certo modo esquecido pela excelência do pintor e grande cientista. Sim, esse mesmo em que estais a pensar: o autor da “Mona Lisa” – Leonardo da Vinci (séc. XV-XVI).
Já que falamos de gatos na literatura, em fábulas e contos, não podemos esquecer o francês Perrault, contemporâneo de La Fontaine, esse mesmo, o da Gata Borralheira (que, como sabeis, não é gata) e de O Gato das Botas que, como se sabe também, é um gato feiticeiro, espertalhão e com fantástico poder..
No que à literatura diz respeito, falta falar nos gatos que por vezes apenas são usados, a nível do simbólico, em títulos, como fez o nosso escritor Fialho de Almeida (séc. XIX) na sua obra – Os Gatos – não em fábulas mas sim em crónicas “em que predomina a nota mordente e sarcástica”, como arranhadelas de gatos…
Podíamos alongar esta apresentação com inúmeros nomes de gente da Arte – célebres escritores e pintores, antigos e modernos, de nacionalidades várias. Experimentem vocês pesquisar, como eu fiz, por exemplo, “gatos na literatura”, ou “gatos na pintura”, etc. … Nessa perspectiva, quero deixar aqui os nomes de dois livros de José Jorge Letria, da Oficina do Livro. São eles: Amados Cães e Amados Gatos, que me permito recomendar..

4.Concluindo. Falando de gatos na literatura – personagens de fábulas ou de contos –, no que respeita ao carácter e ao comportamento, apresentam-se numa escala muito ampla e variada, sempre em conformidade com a índole e o instinto da espécie. Farunfa é exemplo de ternura, mimanço e meiguice, como convém à literatura infantil. Mas há fábulas em que o gato, geralmente inteligente, astuto, perspicaz, assume carácter e comportamento de braveza; outras vezes, de crueldade; e, noutras ainda, vai até ao extremo da ferocidade felina predadora, como veremos na fábula de Da Vinci que vamos ler a terminar este apontamento. Gatos e outros animais personagens de histórias, de contos, de fábulas, sabem adequar, pelo poder que lhes atribuem os seus criadores, o comportamento e o carácter, conforme o tipo de destinatários em que pensam os autores, tendo em vista a moral da história, o ensinamento da vida que pretendem sugerir, quando não, apenas, a intenção de divertir os leitores….
Reiterando os meus parabéns às criadoras da bela obrinha, com os votos de que seja bem recebida, bem lida, bem vista (que tem muito que ver), terminarei com uma fábula de Leonardo da Vinci, em que o protagonista felino nos aparece, realisticamente, no extremo da ferocidade de que é capaz o instinto de um gato: simplesmente abocanha as outras duas personagens. É caso para dizer: viva o amor, abaixo a violência! Aí vai então a fábula de Da Vinci.

“O RATO, A DONINHA E O GATO
(Leonardo da Vinci – séc. XV-XVI)

Certa manhã, um ratinho não podia deixar a sua toca, porque uma doninha faminta esperava do lado de fora. Ele sabia que estava correndo um perigo enorme, e tremia de medo. Mas, de repente, um gato surgiu do nada e pulou sobre a doninha, abocanhando-a bem segura com os dentes. Num instante ela estava morta, sendo em seguida devorada pelo felino.

– Céus! Muito Obrigado! – disse o rato, que viu toda a cena pela abertura da toca. – Em gratidão, vou sair e oferecer-lhe um pouco da minha comida.

E assim foi feito.

Mas, aliviado por ter escapado de um perigo, o tolo esqueceu-se do outro perigo maior. O gato, por ser gato, acabou por devorá-lo a ele também.”

Moral da(s) história(s), agora digo eu:
1) Farunfa e Farunfinhas: paz e serenidade, viva o amor!
2) Fábula de Da Vinci: depois de venceres um enorme perigo, não te distraias, logo pode vir o perigo fatal!

António Marques
Ilha – Pombal, 02 de Dezembro de 2012

Uma resposta

  1. Muito obrigada Dr. António Marques por toda a simpatia e interesse.Este é im trabalho simples mas feito com muito amor e que foi lindamente ilustrado por uma grande artista plástica, Ana Fernandes. Sem falsa modéstia, diria que foi uma simbiose quase perfeita. Foi uma honra tê-lo como apresentador e é uma honra ainda maior poder considerá-lo um amigo. Para si, toda a minha admiração pela pessoa que é e pela paixão que tem demonstrado pela nossa Língua Portuguesa. Um abraço.
    Cidália Couto

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