Bento XVI – desmitificador/dessacralizador(?): alguns pontos de reflexão sobre o papado

Conceitos:
Desmitificar:  1 desfazer (um mito); 2 retirar o carácter mítico ou sagrado a
Desmistificar: 1 desfazer a mistificação de; 2 denunciar (um erro)
Dessacralizar: desprover do carácter sagrado
(Dos dicionários)

Vamos por pontos então::

1. Antes da eleição papal de Ratzinger, eu disse a amigos meus que o Papa ia ser Ratzinger. E foi.
– Como é que adivinhaste? – perguntaram-me depois de ter saído o fumo branco e anunciado “Papam habemus – Cardeal Ratzinger”
– Eu não adivinhei. Acompanhei, analisei,  predisse (= disse antes) e acertei! Ratzinger, teólogo progressista do Concílio Vaticano II, companheiro e colega próximo do professor/teólogo Hans Kung na mesma Universidade, e que o cardeal zelador da Doutrina da Fé – Ratzinger! – afastou da cátedra, ou seja, proibiu, em nome do Papa, de ensinar teologia. A viragem deu-se quando ele um dia  meteu em cabeça que haveria de ser  papa. E foi mesmo. Do papa agonizante, caindo aos poucos, sem coragem para deixar a cadeira de Pedro… E sucedeu-lhe mesmo. Pudera! Não fora ele o veículo do Espírito Santo que, ao ouvido do mais que fragilizado   João Paulo II, soprara os nomes dos cardeais que iam sendo nomeados?… Mas – diga-se – ainda bem que foi eleito. Se calhar, outro não seria capaz deste gesto de homem…, esta pedrada no charco…, esta desmitificação do cargo e da função, como vi escrito nos jornais… esta dessacaralização do Papa, que nem por isso deixa de ser homem e muito homem…

Não terá sido esta a estratégia de alguém de nível intelectual superior que, no fim de contas, sabe melhor do que ninguém que as religiões, todas elas, assentam em mitos, em lendas, em metafísicas (sobrenaturais, claro!) incríveis, mistificações, mitificações e que os dogmas (e as aparições do divino – as epifanias), absurdos, só podem ser provados por milagres que ninguém viu, que ninguém pode provar… Ou então impostos pela mítica/mistificação da infalibilidade…

2. Viragem.

“Ratzinger já pôs em causa a regra do celibato.
“Em 1970, Ratzinger – o Papa resignante – alertava para  a necessidade de repensar a lei que impede padres de casar. Vaticano afasta qualquer debate.
“A regra do celibato deve ser revista e tratada de maneira diferente pela Igreja Católica.” Foi esta a opinião expressa por Joseph Ratzinger, quando, em 1970, era teólogo e professor universitário. Teólogos ouvidos pelo DN não ficam surpreendidos por o agora Papa defender uma posição diferente. E descartam o lançamento deste debate durante o seu pontificado.
O texto que nunca tinha sido revelado foi ontem tornado público pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung, foi subscrito por outros oito teólogos, entre eles Karl Rahner, Otto Semmelroth e Walter Kasper. Na altura, os pensadores enviaram uma carta à conferência episcopal alemã onde alertavam para a “desobediência maciça de grupos de padres” à regra que obriga os sacerdotes à castidade. E ainda para o facto de esta exigência poder afastar candidatos do sacerdócio.
Para o teólogo e filósofo Anselmo Borges esta viragem na opinião Ratzinger não é surpreendente para quem conhece a sua profunda e vasta obra. ‘O Papa tinha um pensamento muito aberto, esteve muito perto do concílio Vaticano II, e era até amigo de teólogos como Hans Kung. Depois retraiu-se.” (Notícia a 3 colunas, bem ilustrada c/ a figura solene do Papa, desenvolvida por Rita Carvalho, in DN 29/01/2011).

Pois! “Bento XVI não foi sempre conservador. Ainda só professor escreveu em 1968: “Acima do Papa encontra-se a própria consciência, à qual é preciso obedecer em primeiro lugar; se for necessário até contra o que disser a autoridade eclesiástica” […] Também escreveu que era necessário repensar a descentralização da Igreja, abrindo um debate sobre o primado papal” (DN 16/02/2013, p. 46: Bento XVI resigna. E depois?, Anselmo Borges).  Pois não! Não foi sempre conservador! Lembro-me bem de acompanhar o Concílio pela revista CONCILIUM, que assinava. Ele era um dos teólogos que davam cartas, nos seus artigos de teólogo clarividente e ousado…

3. Segundo Hans Kung, – o tal que foi impedido de ensinar teologia – disse/escreveu: “Bento XVI contribuiu para desmitificar um cargo e mostrou entender os tempos modernos”. Não esquecer que Hans Kung, como Ratzinger, foi teólogo perito no Concílio Vaticano II. Da ala progressista, claro.

Opinião do jornalista Manuel Queiroz:

“No meio de todos os elogios do Papa Bento XVI pelo seu gesto humílimo, de renúncia, de coragem, venho à liça para, sem tocar com uma pena na sua decisão, colocar as minhas perplexidades perante um acto desde logo dessacralizador de um cargo e de uma função que, a um católico como eu, me causa algumas angústias.[…] Não sei se esta abdicação papal entra na infalibilidade. Sei que há muitos católicos preocupados.”

O franciscano Henri Burin des Roziers, envolvido desde há décadas na defesa dos sem-terra no Brasil e dos índios da Amazónia, pediu ontem para que o futuro papa “mude o estilo” e “leve uma vida simples”. Prémio Internacional dos Direitos Humanos, Des Rosiers disse ser indispensável acabar “com o aparato e vida sumptuosa” no Vaticano.

4. Renúncia papal.

“Bento XVI, que deixará o pontificado a 28 de Fevereiro, não é o primeiro papa que renuncia na história da Igreja Católica, o último foi Gregório XII, no século XV (1406-1415).
O primeiro foi o papa Clemente I (de 88 a 97), que renunciou a favor de Evaristo, depois de ser detido e condenado ao exílio, segundo a EFE.
O papa Ponciano (230 a 235) deixou a liderança da Igreja Católica a favor do papa Antero depois de ser condenado ao exílio, enquanto o papa Silvério (536 a 537) foi obrigado a renunciar a favor do papa Vigílio.
Mais complicada foi a história de Bento IX (de Março a 1 de Maio de 1045) que num primeiro momento renunciou a favor de Silvestre III e depois retomou o cargo para o passar a Gregório VI, mas foi acusado de estar no cargo de forma ilegal e decidiu também renunciar.
O papa Celestino V teve um pontificado de 29 de Agosto a 13 de Dezembro de 1294 e depois retirou-se para uma vida de eremita. Após a  sua  renúncia foi eleito Bonifácio VIII.
O último papa que renunciou foi Gregório XII (1406 a 1415), que viveu o chamado Cisma do Ocidente. (Lusa/SOL)

5. Não é só a renúncia (deste ou de outros papas) que constitui, na História da Igreja, uma ‘pedrada no charco’. Esta é uma pedrada bem positiva: O Papa não é Deus, é um homem, sujeito a todas as coragens e a todas as fraquezas; a todas as ousadias e a todos os erros (Infalibilidade?… O que é isso?).

Mas, pedrada maior, e se calhar ainda mais positiva, foi a da Papisa Joana,  pelo século nono (844…).  A Papisa Joana teria sido a única mulher a governar a Igreja durante dois ou três anos, segundo uma lenda que circulou na Europa por vários séculos.

Vejam a LISTA DOS PAPAS, desde o 1.º, São Pedro, ao 260.º, Pio XII, em 1939, no Manuel d’Histoire Ecclésiastique de Pierre [Petrus] Albers (segundo volume, 1939).

Tratando-se dos papas com o nome João (Jean), regista de São João I (523-526) a João XXIII [sic] (1410-1415 [sic]). Entre João XIX e João XXIII, não regista  João XX. Terá sido aqui que se evidenciou a polémica relativa à numeração dos Papas João, a qual teria sido dada como arrumada com  João XXIII (sem número de ordem mas com data de 1410-1415, e que o BOM PAPA João, do Concílio Vaticano II decidiu resolver de uma vez por todas: João XXIII (repetido).

Podemos perguntar: porquê esta embrulhada toda numa lista dos Papas que pretende ser completa? É que entre João VII e João VIII, há um João sem numeração (entre Gregório IV, papa de 827 a 844, e Sérgio II, papa de 844 a 847), dando certamente a entender que aqui terá havido algum problema com algum papa João… Qual? Não terá sido uma papisa Joana, a tal papisa Joana, mulher medieval que, segundo a lenda, se atreveu a tornar-se teóloga e com tanta ilustração que terá conseguido ser eleita Papa (e quando foi descoberta se tornou a Papisa Joana)?… Recomenda-se a leitura do romance histórico A Papisa Joana de Donna Woolfolk Cross (Editorial Presença), mas não se deixe de ler a “Nota da Autora”, uma historiadora que, confessando que não teve coragem para escrever uma obra historiográfica, fecha o livro com uma nota historiográfica, fundamentada com documentação. Vale a pena ler nestes tempos de surpresas papistas. O Bom Papa João repete o nome João XXIII. O papa Ratzinger, com a resignação, acaba de desmitificar (e, porque não, dessacralizar?) o cargo e a função de Papa…

E, já agora, só uma pergunta. Sobre a lenda da Papisa Joana (e eu creio que é lenda porque a Igreja medieval não podia admitir que uma mulher, em plena Idade Média, vejam bem, tivesse sido capaz, disfarçada em vestes masculinas, claro, de realizar uma carreira intelectual religiosa, de convento em convento, impondo-se aos seus confrades, pela inteligência e saber filosófico-teológico, a ponto de merecer ser eleita Papa): então as  feministas à séria que querem ser padres, que querem ser bispos, que querem ser Papas como os homens, não falam? Não se lembram da Papisa Joana? Será então mesmo uma lenda? Ou será, antes, um facto histórico com o rabo de fora através da lenda?!…

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