“Ponto final”, não! “As palavras”, sim!

(Sem comentários)

“Durante sete anos, às quartas-feiras, publiquei no Diário de Notícias, a convite expresso de João Marcelino, um crítica de costumes e hábitos. Foram sete anos excelentes, de trabalho entretido como tal,e de uma estima comum que se converteu em amizade. Marcelino é um jornalista com os princípios marcantes de outro tempo. […] Fui posto fora, mas não das palavras. Vou com elas, velhas amantes, para onde haja um jornal que as queira e admita a indignação e a cólera como elementos de afecto e sinais de esperança, de coragem e de tenacidade. Nunca João Marcelino admitiu recados e aceitou encomendas enviesadas tendentes a amenizar o texto, portanto as ideias do seu colaborador. Nos tempos que correm, o que em outros anteriores seria normal é, agora, virtude e coragem. Estou-lhe grato pela rectidão de carácter tantas vezes demonstrada”.
(Ultima crónica de Baptista-Bastos no Diário de Notícias, Quarta-feira, 8 de Outubro de 2014, p. 5. Por decisão pessoal, o autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico).

Agora aqui
“Às quartas-feiras, todas e por aí fora, tocarei no batente do Correio da Manhã para deixar o meu recado. Com esta presença, fecho um ciclo pessoal na Imprensa portuguesa; escrevi, nos últimos cinquenta anos, em todos os jornais nacionais, inclusive em A Bola. Não é fadário: é um destino por mim próprio escolhido e procurado. Estou, agora, no Correio da Manhã, com o gosto e o prazer que sempre comigo viveram: pertenço a isto e isto sempre me pertenceu. Sou de uma longa família de construtores de jornais: o meu pai, o meu irmão andaram de componedor a erigir os caracteres tipográficos à glória da comunicação. Eu fiquei-me por aqui, a perfilar palavras e a organizar frases, cheio da soberba de me presumir útil. Nos últimos sete anos, batuquei, nas teclas, prosa desse jaez e estilo, publicada, semanalmente, no ‘Diário de Notícias’, com o razoável  êxito abonatório de todos aqueles (já somos poucos)que não vendem fruta com bicho. Na segunda-feira, dia 6 deste mês, um factótum, cujo nome ignoro, telefonou-me e disse: acabou. Redigi um texto modesto de adeus e pena, e fui à vida, como até hoje o tenho feito. Ensinaram-me a não me lamuriar e a não me queixar. E a saber esperar, com paciente expectativa, o que de melhor a vida tem para nos oferecer. Sem vaidade ou presunção, recebi centenas, repito: centenas de mails, de sms, de telefonemas, numa solidariedade provinda de todas as direcções. Velhos parceiros dr luta e de jornalismo, alguns dos quais muito recuados no tempo, vieram a terreiro. Claro que houve ausências e silêncios precavidos. O medo mantém vigilâncias apertadas. Mas, horas depois do meu saneamento ser conhecido, apenas horas depois, Octávio Ribeiro abria-me as portas do seu jornal, numa demonstração de camaradagem já rara. E cá estou.
Como ia dizendo há três quartas-feiras, “na certeza das minhas convicções sem certezas absolutas”, assimilei que a experiência democrática tem feito de nós sujeitos éticos, cujo silêncio não significa nem aquiescência nem resignação. Porém, não há democracia que seja a inexistência do todo. Eu próprio me interrogo sobre o valor que possuo da democracia. Reconhecendo que esta, a “nossa” é abjecta. Mas tem saída. Porque estamos cá”.
(Primeira crónica de Baptista-Bastos no Correio da Manhã, Quarta-feira, 29 de Outubro de 2014, p. 2. Por decisão pessoal, o autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico).

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