“Não ver o que nos entra pelos olhos dentro”

Ante-scriptum. – No comment. Com a devida vénia, permito-me transcrever aqui outra crónica de Ferreira Fernandes (DN de Sábado, 7/3/15, última página), a qual, sem comentários, eu logo subscreveria. (Não me leve a mal que eu escreva a sua crónica com a ‘minha’ ortografia…). Aí vai então:

Não ver o que nos entra pelos olhos dentro.

Jacques Attali, antigo conselheiro do presidente François Mitterrand, tem um blogue no site da revista francesa L’Express, em que se edeu como missão alertar a Europa para a prioridade dela. A palavra, prioridade, é fundamental para quem quer fazer política e não é todo-poderoso, como é o caso, cada vez mais grave, da Europa. Esta tem cada vez menos recursos para se impor e cada vez menos percebe o que lhe acontece. – descobrir a sua prioridade é de urgência dramática.

Diz-se que Constantinopla discutia o sexo dos anjos quando estava cercada pelos turcos. Os habitantes gostavam desses temas bizantinos (de Bizâncio, outro nome da cidade), já antes haviam discutido o mês exacto em que a alma descia ao feto (e discutia-se com minúcia, as almas masculinas chegavam semanas antes das femininas). Então, no ano de 1453, Constantinopla fervilhava sobre a magna questão, anjos com pilinha ou não, quando lhes aconteceu a definitiva entrada de turbantes pelas muralhas dentro. Os cristãos do Oriente não souberam estabelecer a prioridade e, como poder, desapareceram.

A Europa cristã comoveu-se muito com o acontecido, mas a verdade é que não fez grande coisa para salvar Constantinopla. E com isso não se quer dizer que todos tivessem, naquele exacto ano do fim, 1453, escolhido mal a prioridade. Os reinos cristãos ibéricos, por exemplo, preferiram resolver o problema interno na Península, reconquistar os reinos mouros, em vez de partir para uma aventura perdida. Quando caiu, Constantinopla tinha sete mil soldados. Estava cercada por mais de cem mil soldados e cavaleiros otomanos, que se permitiam ter mais músicos – com instrumentos para assustar – do que os sitiados tinham de homens com armas. Os cristãos do Oriente tinham passado um milénio a delapidar o Império Romano do Oriente.

Hierarquia de coisas a fazer – saber da tal prioridade – é o que defende Jacques Attali, para a Europa, hoje: e não, não é atacar Vladimir Putin. Sim, a Rússia não é democrática, mas também não o é a Ucrânia. E se aquela é uma região em pré-guerra galopante, a Europa não deve meter-se na aventura nem escolher um lado. Ou melhor, o seu lado é tentar desfazer o seu tempo errado a acirrar o mais fraco, a Ucrânia, mesmo quando esta prometia o disparate de proibir as minorias russas de falar russo. Se há política europeia a ter para aquela região, é lembrar que a Rússia é também europeia. E recuperá-la para essa causa histórica e cultural é tanto mais importante porque a Europa tem, essa sim, uma prioridade: combater o inimigo, o radicalismo islâmico.

Se a Europa se der conta desta obviedade que nos entra todos os dias pelos noticiários dentro, percebe que precisa da Rússia como aliada (e a Rússia da Europa). Na região fulcral do islamismo, a América, arrastando a Europa, age como uma barata tonta: ora está com a sunita Arábia Saudita, ora inverte o poder no Iraque, dando-o aos xiitas; em meses, EUA, França e Reino Unido passam do discutir sobre como bombardear o governo sírio, aliado dos xiitas, para combinar com ele como combater o sunita Estado Islâmico… Não, desta vez não é o imperialismo ocidental que baralha e instiga os seus títeres locais. Enfim, tenta fazê-lo, ao sabor dos seus imediatos interesses petrolíferos, mas desta vez é mesmo tontice de barata que perdeu o controlo dos acontecimentos. O barril de petróleo tornou-se autónomo, movido pelo explosivo barril de pólvora religiosa. A guerra aberta que as duas correntes xiitas e sunitas travam entre si para recompor as forças na Península Arábica é assunto de gerações e traçará novos mapas. E são elas, não nós, que vão decidir os desfechos, não só ali mas em todo o mundo islâmico.

Entretanto, o fanatismo religioso trata de nos mostrar o cariz mais chocante dessa guerra – o culto da morte (agora potenciado pela capacidade de demonstração e divulgação dos vídeos na net), o culto da aniquilação do outro (incluindo a história que esteja fora do seu nicho religioso) e o desprezo pelas mulheres. Cada degola, cada estátua destruída e cada burka deveriam mostrar à Europa quem é o inimigo.

Mas quase reduzida já à ninharia dos seus “sete mil soldados”, a Europa ainda nem se deu conta da sua prioridade. O inimigo da Europa, hoje, é o radicalismo islâmico. Tudo o mais – incluindo as necessariamente boas relações com os islâmicos – deve ter em conta esse facto.”

[Destacado entre colunas]:

“Cada degola, cada estátua destruída e cada burka deveriam mostrar à Europa quem é o inimigo, o radicalismo islâmico”

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