“Empreendedorismo”!? E então a haplologia?

Citemos:

“Empreendedorismo é uma palavra feia, empreendedorismo público parece uma contradição nos termos” (Vide DN de 18/04/2015, Editorial de André Macedo).

Pois! Quem escreveu isto foi o Senhor André Macedo, director do Diário de Notícias. E escreveu isto, porque, se calhar, ele não aprendeu bem (ou não seguiu bem o estudo da nossa querida Língua! Como agora tanto falante, simples falante ou falante/escrevente; e, ainda por mais, neste caos infernal que uns senhores ignorantes da Língua – vejam só! – querem impor aos escreventes da Língua de Camões! E outros, também ignorantes – tanto e tantos! – permitem, consentem, e, vejam bem! – usam “essa coisa obscena chamada Acordo Ortográfico!” (Vasco Graça Moura – que em paz esteja!). Pobre  Língua! Pobres falantes aprendizes dela! Mas… ainda havemos de impedir essa aberração!… Ai, lá isso havemos!…

Ora vejamos então:

“HAPLOLOGIA – Supressão de uma sílaba semelhante a outra existente na palavra:
saudade – oso > saudadoso > saudoso
bondade – osso > bondadoso > bondoso
idade – oso > idadoso > idoso “
(Gramática citada: Nova Gramática de Português, Cármen Nunes, et al., Didáctica Editora, p. 188, rubrica ‘Alterações Fonéticas’).

Pois é claro que o Senhor falante/escrevente (que eu, aliás, não deixo nunca de ler) tem muita razão quando escreve que “empreendedorismo é uma palavra feia”! Assim como o seria, por exemplo, ‘saudadoso’ ou ‘bondadoso’ ou ‘piedadoso’. Mas todas esta podem tornar-se palavras lindas, se, ao usá-las, nos ativermos às normas que devíamos ter aprendido, e que alguns de nós não aprenderam porque os seus ‘ensinadores’ não os ensinaram!

Mas vamos continuar. Vocês pensam que eu, bom professor de Português que tenho ainda o gosto de ter sido (deixem passar a imodéstia!…), alguma vez uso ‘empreendedorismo’? É claro que não: recorro ao fenómeno normal que as gramáticas (e os gramáticos) permitem (ou obrigam?…). E, se assim procederem, a palavra torna-se bonita. Vejam: empreendorismo. Mas há Mais: ‘Consultadoria’? Não. Consultoria! ‘Computadorização’? Não: Computação (ou, vamos lá, computarização…). E outros exemplos. Mas não vale a pena estarmos aqui a esgotá-los…

Empreendedorismo?! E porque não recorrer à haplologia? ‘Empreendorismo’ pois!

Nota final: Na dúvida se o próprio Camões teria usado as formas haplológicas “cuidoso/cuidosa/cuidosos/cuidosas”, empreendi uma investigação mais profunda e a minha dúvida ficou resolvida. Agora, já sem qualquer dúvida, posso dizer que sim: Camões usou essas formas adjectivais haplológicas. Um só exemplo: basta abrir Os Lusíadas, Canto III, estância 132, v 8: “No futuro castigo não cuidosos”. Procurem outros que os haverá…

POMBAL, 21/04/2015

Anúncios

There are no comments on this post.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: