Quão

De uma mensagem de pessoa amiga (não digo se homem ou mulher para tornar mais fácil o anonimato) tirei o advérbio “quão”, usado por duas vezes na dita mensagem:

1. “… mostrar o quão bom lugar é [esta terra]…”
2. “De resto, espero que esteja tudo bem [….. ]. Espero também que vá dando novidades, pois sinceramente fico a sentir-me mal quando recebo estes e-mails e percebo à quão tempo [sic] não falava consigo.”

Trata-se de um advérbio de quantidade que tem no latim o étimo correspondente – quam – e a mesma ideia significativa de quantidade, quase sempre comparativa. Mas vamos às gramáticas e aos dicionários buscar a classificação e o uso correcto em contexto discursivo:

Quão, adv. (lat. quam). Quanto, como: quão desgraçado eu sou! Tão feia quão bondosa. (Dicionário Prático Ilustrado, Lello).

“Outros advérbios de quantidade: pouco, menos, demasiado, quão, tanto, tão, assaz, que…” (Compêndio de Gramática Portuguesa. A Gomes Ferreira, J. Nunes de Figueiredo, Porto Editora (edição mais recente).

Comentários aos dois usos referidos:

1. Não é muito usado assim, mas preferindo-se este uso, ficaria mais confome a norma, suprimindo o artigo inicial, ficando assim a frase: quão bom lugar é esta terra.

2. “à quão tempo…” é incorrecto: ‘à’ está errado, deve ser ‘há’ do verbo haver; e, em vez de ‘quão’ usar ‘quanto’: Há quanto tempo te não vejo!

E daqui podemos passar ao nome que os eruditos (gregos, claro) deram a este tipo de erro ou vício de linguagem: solecismo. Solecismo porquê? Eis (trancreve-se do mesmo Dicionário Prático Ilustrado da Lello):

Solecismo. Substativo masculino (gr. Soloikismos, lat. soloecismu. Erro contra as regras da sintaxe: houveram homens por houve homens [Este desgraçado verbo haver que anda por aí assim tão desgarrado!…]. Por extensão, qualquer erro ou falta. Falava-se muito mal o grego, em Soles, cidade da Silícia, fundada pelos Atenienses. Do nome dos habitantes dessa cidade provém a palavra solecismo.

2 Respostas

  1. Apreendido com sucesso

  2. ‘Quão’ grato sentimento, caro Eliseu, que ao menos um cofalante da nossa língua tenha partilhado a minha ideia, pelos dois ‘apreendida com sucesso’, calando o bico das ‘gralhas que por aí grasnam e os erros que por aí grassam’!
    António
    Pombal, 18/09/15

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